terça-feira, 26 de junho de 2018

O Chiquinho


Num quarto andar da Rua de Latino Coelho vive alegre e satisfeito, na sua gaiola, o «Chiquinho», lindo e manso periquito. Tem o peito de cor azul, asas cinzentas mescladas de branco, penas alvas e aveludadas na cabeça, e, por baixo do bico, ostenta seis pintas também azuis, sem esquecer a cauda, que possui tons de safira mordida por feixes de luz.
O «Chiquinho» não é um periquito vulgar: adorando a gaiola, onde saltita, brinca e fala, atreve-se a vir até ao ombro dos donos; aprecia o miolo de pão embebido em café com leite, à hora do pequeno almoço; delicia-se com a frescura das alfaces e o sabor agradável dos pêssegos; e, empoleirado nas mãos das pessoas amigas, os seus olhos minúsculos e pretos, muito luminosos e inocentes, enchem-se de ternura. Não tem medo de espécie alguma: supõe que toda a gente, que o afaga e acarinha, aprendeu os ensinamentos da alma de S. Francisco de Assis. Só há uma coisa que o amedronta – o frio do inverno, e, por isso, a sua gaiola, em tal quadra do ano, está protegida com tiras de lã. Aos domingos, quando a família se reúne para almoçar, o «Chiquinho» sacode as penas, pedindo assim que lhe abram a porta da gaiola. É vê-lo então: contentíssimo, considera a mesa propriedade sua, onde Deus espalha a fartura, para que ele possa debicar côdeas de pão, bagos de arroz e tudo o que mais lhe oferecerem. Mete-se nos copos ainda humedecidos pelo vinho, e, com a língua grossa e escura, lambe o vidro em busca de gotas do precioso líquido, que o fascina e encanta. Se lhe fosse permitido, «Chiquinho» gostaria de se embriagar em completa liberdade.
Se o mercúrio do termómetro baixa, logo ele prefere a gaiola às brincadeiras que se lhe proporcionam; se sai do poleiro, ultrapassando a portinhola aberta, procura, junto dos lábios dos donos, o bafo morno, que o aquece e reanima.
«Chiquinho» fala extraordinariamente bem, como simples periquito que é. Se há sol e barulho em dicção claríssima diz numa conversa quase seguida: «Meu menino», «Chiquinho pequenino», «Estás bonzinho?», «Da cá um beijinho», «Como está, seu Chiquinho?», «Vá dormir!». Quando o fazem zangar, exclama: «Ai, ai, ai!». Se quer chamar alguém, ouve-se-lhe um nítido e engraçado «Psiu!».
Calcula com maravilhosa exactidão a hora em que o dono volta do emprego, e, minutos antes, trila duas vezes e sacode as penas com frenesi. Quando este chega, saltita na gaiola como a querer saudá-lo em ímpetos de grata amizade.
Parece extasiar-se com a música, sempre por ele escutada atentamente através da telefonia e, dotado de óptima memória, procura imitar os sons que mais lhe agradam. Todo se alegra diante de um espelho, e, nesses instantes de felicidade, tagarela e tagarela, que é mesmo regalo dos olhos e do espírito observá-lo em plena loquenda.
«Chiquinho», periquito lindo e meigo, tem direito a possuir uma «biografia», e eis-nos a exalçar o seu modesto viver, por entre os carinhos duma família que o admira e adora.

Fonte: Almanaque Diário de Notícias (1954)
Texto/Autor: Desconhecido
Foto da revista
𺰘¨¨˜°ºðCarlosCoelho𺰘¨¨˜°ºð

sexta-feira, 25 de maio de 2018

A última boneca


A meio da doença cruciante,
No vivo empenho de a animar ainda,
Comprei-lhe uma boneca muito linda,
Que ela teve nas mãos um só instante.

Mas teve-a em suas mãos, e isso é bastante
Para que eu, muita vez, com mágoa infinda,
Beije a boneca, apetecendo a vinda
Da morte maternal, pacificante.

Pobre boneca! Ao ver meu desatino,
Mostrar pareces tal desconfiança
Que eu nem me atrevo a defrontar-me ao espelho.

E tens razão: erraste o teu destino!
Em vez de fazer rir uma criança,
Fazes chorar agora um pobre velho!

Fonte: Almanaque Bertrand
Texto/Autor: Eugénio de Castro
Foto da net
𺰘¨¨˜°ºðCarlosCoelho𺰘¨¨˜°ºð

terça-feira, 24 de abril de 2018

A Gota de Chuva


Era uma vez uma gota de chuva. Apareceu com os primeiros raios de sol e era tão redonda, brilhante e transparente que parecia uma pedra preciosa esquecida por uma fada numa pétala de rosa.
Enquanto as outras gotas falavam e se divertiam a deslizar pelas folhas de outras plantas do jardim, a gota redonda nem se mexia. Não queria estragar a sua forma e temia que o mais pequeno movimento a dividisse em muitas gotinhas sem o mesmo brilho.
Um beija-flor, que saiu do seu esconderijo com a claridade que veio depois da chuva, aproximou-se da rosa para provar o seu néctar. Mas a gota redonda pediu-lhe para ir tomar o pequeno-almoço noutro lado.
O movimento rápido que o pássaro tinha de fazer com as asas para se equilibrar no ar podia fazê-la rebolar pela pétala abaixo e cair no chão.
O beija-flor reconheceu que era muito bonita e, como nunca lhe tinha feito um pedido semelhante, acedeu ao desejo da gota. Ainda que lamentasse perder um sumo tão delicioso, virou-se, deu uma vista de olhos pelos canteiros e voou rapidamente em direcção às camélias.
Pouco tempo depois um mosquito aterrou numa folha da roseira. Tinha a garganta seca por ter feito uma longa viagem desde o pinheiro onde dormia, e pensou que aquela água era do tamanho ideal para acabar com a sua sede.
A gota redonda pediu-lhe para ir beber à poça de água formada na terra, ao pé das raízes da buganvília, pois tinha visto outros insectos voarem nessa direcção e o lugar devia ser mais do seu agrado. O mosquito que gostava de beber em boa companhia, concordou e fez um voo picado até ao charco, onde encontrou alguns amigos que já lá estavam desde a madrugada.
A gota suspirou aliviada e descansou alguns minutos de todos estes contratempos.
O sossego durou pouco porque de repente viu avançar na sua direcção uma aranha com idade para ter teia própria. Vinha devagar tecendo a linha da sua rede com cuidado, tentando não se enganar nas voltas para não ficar presa na sua própria armadilha. Faltava-lhe pouco para acabar a sua primeira obra e, quando olhou em frente, viu que a folha no alto da roseira era o lugar ideal para lançar o fio mais comprido.
A gota tentou afastar o perigo explicando os seus porquês. A aranha, que era muito resmungona, ficou zangada por ter de refazer uma parte do trabalho por causa de uma gota maçadora e, depois de  uma troca de palavras desagradáveis, continuou a tecer a rede com a baba que saia da sua boca para esse efeito.
Mas a gota teimosa encontrou tantos argumentos para a dissuadir, que a aranha farta de ouvir um nunca-acabar de palavras que lhe cortavam a inspiração, decidiu mudar de rumo e poisar a última ponta da teia na glicínia.
Enquanto continuava redonda e brilhante, sem se mexer, pensava como era difícil a vida naquele jardim. Tinha de lutar pela sua sobrevivência com toda a imaginação e usar o poder da palavra para se defender dos mais fortes.
Das gotas brincalhonas não ficavam nem rastos, teve os seus momentos de inveja ao ouvi-las rir e cantar, mas agora não se arrependia de todos os seus cuidados. Afinal, ainda lá estava no mesmo lugar em que tinha caído do céu. Um caracol dorminhoco que não gostava de madrugar acordou com o piar de uns pardais que disputavam os bagos de arroz espalhados na noite anterior à volta da gamela do cão. Pôs as antenas de fora, esticou o pescoço, olhou em redor e decidiu dar um passeio. Nada melhor para começar bem o dia do que escalar uma planta. A roseira onde tinha passado a noite parecia-lhe mais indicada. O seu talo era largo, liso e tinha poucos espinhos.
Começou a subir lentamente deixando ao passar um largo rasto de baba brilhante. Foi esse brilho que alertou a gota de água da chegada do caracol. Por enquanto estava no principio da subida e não corria perigo, mas perto dela o talo era mais fino e, á medida que se aproximasse o peso do caracol faria tremer as flores e provocaria a sua queda.
Gritou com todas as forças da sua voz de água mas o caracol não a ouviu. Prosseguia o seu passeio matinal parando em cada ramo para apreciar a vista, pouco interessado no que se passava lá em cima. Tanto se esforçou a gota para chamar a atenção do caracol que quase perdeu o equilíbrio e, se não tivesse tanto medo de ficar reduzida a uma mini gota, teria começado a chorar.
Tão ocupada estava em não desviar o olhar do trajecto do novo invasor, ela que tinha corrido tantos perigos pequeninos, que não teve tempo de pensar no maior de todos: o sol.
Pouco a pouco, enquanto a gota estava distraída, o sol fez-se mais quente e foi evaporando a sua água, e quando deu por si já estava outra vez sentada numa nuvem rodeada de milhões de gotas vaporosas, prontas a deixarem-se cair quando lhes chegasse a ordem de chover.


FIM

Fonte: Revista Terra do Nunca
Texto/Autor: Cristina Norton – Do Livro “O barco de chocolate”.
Foto da revista
𺰘¨¨˜°ºðCarlosCoelho𺰘¨¨˜°ºð

sexta-feira, 23 de março de 2018

Amor


O Amor! O amor! Ninguém o definiu
É sempre o mesmo. Acaba onde começa.
Quem mais o sente menos o confessa.
E quem melhor o diz nunca o sentiu.

Conhece a todos mas ninguém o viu.
Se o procuramos foge-nos depressa.
Se o desprezamos, tudo se interessa.
Só está presente quando já fugiu.

E quanto mais se quer, menos se alcança.
É homem feito sendo uma criança.
Ninguém o encontra e em toda a parte mora.

Mata a quem dele vive. É sempre assim.
Só principia quando chega ao fim.
Morreu há muito e nasce em cada hora.

Fonte: Almanaque Diário de Notícias (1954)
Texto/Autor: Virgínia Vitorino (Do livro «Namorados»)
Foto do texto.
𺰘¨¨˜°ºðCarlosCoelho𺰘¨¨˜°ºð

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A Árvore Sagrada


A velha estava no meio do terreiro, de pé, muito direita, com as mãos na cabeça. À sua volta, o povo apinhava-se, em silêncio. Todos esperavam numa grande impaciência, que ela falasse. Só da sua boca se poderia saber a verdade amarga, para que se fizesse luz sobre a noite que tombara como uma maldição na senzala e na vida do seu povo miserando, porque fôra ela a única pessoa que presenciara a cena. Mas a velha não pode falar. A comoção embarga-lhe a voz. E está possuída de medo e de pavor.
Os homens abeiram-se mais, e têm os olhos obstinadamente fixos no seu rosto transfigurado, brilhante de suor, os olhos arregalados a ganharem brilho de cristal, a boca torcida a espumar pelos cantos. Quere falar, gritar a toda a gente o seu pavor, mas sente a garganta a apertar-se-lhe e a boca cada vez mais seca e amarga. Levou as mãos, sacudidas de tremuras, à garganta, mas logo as desceu ao peito, a querer acalmar as pancadas desordenadas do coração.
E eles, com os olhares fechados nos seus olhos atónitos, nada lhe perguntaram. Não podiam falar. Também têm medo de abrir a boca. E se o fizessem, decerto nada lhe perguntariam, porque neles só há gritos abafados pelo pavor.
Mas ninguém pode suportar por mais tempo a angústia do silêncio que ensombrou o povo.
A velha fez um esforço enorme e, por fim tartamudeou:
- Caíu… eu vi… não sei… vi… - olhava, com uma expressão de louca, para todos os lados, sem saber onde punha os olhos, sem ver nada.
- Caíu…
Um velhote afastou, com modos bruscos, os homens que estavam à sua frente, chegou-se à velha e pôs-lhe uma mão no ombro. Ao contacto daquela mão, que mal a tocou, a mulher deu um salto para trás e sacudiu-se num grito que ecoou nos longes da estepe onde se acachapa a aldeola. E a multidão recuou. Só o velhote sem se mexer.
Volvidos uns segundos, ele perguntou-lhe com uma voz aparentemente calma:
- Quem é que estava com ele?
Ela abriu muito os olhos, vidrou-os com lágrimas e pôs-se a tremer como uma criancinha medrosa; e foi muito a custo que balbuciou:
- Ali… ali… - E os seus braços estenderam-se para a frente, e ficou-se com as mãos abertas a tatear o espaço. Depois a boca encheu-se-lhe de espuma e não pôde dizer mais nada.
O silêncio que caiu carregou-se de mistério. De longe, lá do fundo da senzala, veio chegando uma toada de choro, que ficou a pairar sobre o povo. Os homens, com os olhos no chão, foram-se afastando para o lado oposto de onde vinha o choro das carpideiras e das mulheres do soba.
Então, a velha acordou do seu espanto para romper num choro sonoro e convulsivo. O homem que lhe falara abeirou-se, tomou-a por um braço e disse-lhe, em voz baixa:
- Vamos, Nhacange.
Deixou-se levar, sem uma palavra. O velhote conduziu-a para a porta da sua cabana, onde a sentou sobre uma esteira. Entrou no colmado, para logo regressar com uma mutopa. Carregado o cachimbo-de-Água com tabaco misturado com cânhamo, acendeu-o e, depois de encher a boca desdentada com várias fumaças, passou-o á velha. Ela fumou em silêncio; e lentamente seu rosto serenou, apagou-se-lhe o brilho cristalino dos olhos e os movimentos tornaram-se vagarosos.
Inclinado sobre o seu ombro, o velho perguntou-lhe:
- Como foi?
Nhacange pôs o cachimbo no chão, deixou cair as mãos no regaço, e, depois de suspirar fundo, disse numa voz lenta:
- Ele saiu de casa muito zangado com as suas mulheres; e ficou a insultar toda a gente.
- Estava bêbedo?
- Não, Xapinda, não estava. Estava só zangado. Quando me viu, gritou assim: «Oh velha, tu já viste uma mulher gritar com o seu homem?! É preciso matar essa velha muári».
- E depois? – Perguntou o velhote, a tremer de inquietação, com os olhos a chisparem.
- Depois, veio a andar para mim, mas quando chegou ali – e ela apontou para a chota – ficou com a cabeça deitada para trás e caiu todo direito, como um pau. Ficou no chão sem se mexer. Nem gritou!
Calaram-se. O choro continuava a vir das cubatas do soba e de suas mulheres, como uma ladainha.
- Foi o sol que o matou… - disse Nhacange, baixando os olhos.
O velho meneou a cabeça e apertou violentamente os lábios. Perguntou com voz dura:
- E depois?
- Eu estava a gritar quando as mulheres dele o levaram.
- E a muata-muári?
- Não vi, Xapinda; não vi. Não saiu da sua casa.
Após um grande silêncio, a velha disse, pausadamente, os olhos a carregarem-se de lágrimas:
- Ele era um homem bom. Não havia outro como ele. Não era?
O homem disse muitas vezes que sim, com rápidos movimentos de cabeça.
-Ele vai ficar com a sua gente – sentenciou Xapinda, depois de longo silêncio.
Nhacange olhou-o abrindo muito os olhos; depois, sorriu de modo compreensivo e disse:
- Sim. Ele era bom.
Xapinda deixou-a. E quando chegou a meio do terreiro, chamou o Camuári, que estava entre a multidão.
O velho e o moço deixaram a aldeia.

///

O soba está morto.
O luar branqueou a terra, e o vento leve que vem do descampado, mal balanceando os cimos do capinzal, arrasta pela estepe longínqua o som dos tambores que choram a morte do chefe que governou com justiça, e que por isso mesmo, passou a viver na saudade do seu povo.
Choram os tambores nas bocas dos caminhos das senzalas, convidando à dor os homens que, nas aldeolas perdidas na estepe, os escutam. As mulheres gritam á volta do cadáver o seu desespero e amargura. E além, dentro da noite de uma mata, em redor dos clarões de uma fogueira, rezam os feiticeiros.
E todos sentem que o soba está mais perto deles. A dor do povo engrandeceu o homem que a morte sentou. A sua memória já se quedou na história do povo. Amanhã, depois de dançado o batuque fúnebre, os cantadores irão, de aldeia em aldeia, sertões em fora, cantar a canção da sua vida e da sua morte. Mas quando os homens que o viram e amaram, porque foi justo para a sua gente e cruel para o inimigo, já não existirem, a sua história, adulterada pela imaginação das velhas contadoras de rimances e dos cantadores, volver-se-á em lenda. E se um dia o fogo rolar pela senzala e fizer das árvores cinzas, tornando aquele chão terra abandonada, onde ninguém porá o sentido, ainda serão os velhos que o conheceram, quem guardará, para transmitir à sua gente e aos moços viandantes que pernoitem na sua nova terra e aldeia, a lenda desse soba que teve senzala na estepe lunda, em recuados tempos, e que morreu de feitiço… e eles não deixarão, de regresso ao seu povo, de cantar, ao som dolente e nostálgico dos quissanjes, a lenda feita canção.

///

Calaram-se as vozes dos tambores.
O sol espelha a sombra das árvores no terreiro, onde o povo, em magote, segue, com os olhos maguados de medo, a cerimónia a que estão entregues os feiticeiros, acocorados à volta de uma árvore de culto. Falam monotonamente, numa linguagem que só eles compreendem – eles e os espíritos a quem se dirigem. E quando se calaram, ficaram a olhar, com uma fixidez que os absorveu por completo, para a árvore mantendo uma postura de encantadores de serpentes. Ao seu lado, brilham as lâminas das facas, depostas sobre a mascara dura, talhada num madeiro enterrado junto á árvore de culto, do deus Camuári, o deus da morte. E só quando das bandas da moradia do soba se levantou um chamado, é que eles se moveram, lentamente, mas logo voltaram à mesma posição. Minutos depois, vários homens, gente grada, trouxeram, sobre uma padiola, o cadáver do soba, envolvido em folhas. Quando eles chegaram ao pé dos feiticeiros, depuseram o corpo do soba à sombra da árvore de culto, sob a protecção do deus Camuári. E fez-se silêncio.
Nhacange, enrodilhada a um canto da sua cubata, está a chorar as últimas lágrimas. Logo, ela irá cantar, na roda do batuque, a canção da vida e da morte do seu soba:
Na casa onde o chefe do povo habitou durante largos anos, as suas viúvas já não têm mais lágrimas. Estão caídas pelos cantos, a gemerem a sua dor.
E além, à beira do caminho público, o velho Xapinda, ajudado por alguns moços, acaba de erguer a cubata que receberá o corpo do soba, depois dos feiticeiros lhe roubarem a alma.
Xapinda está a ouvir o som das facas a vibrarem golpes na árvore, enquanto os feiticeiros, com exortações e rezas, procedem à transladação do espírito do soba, apelando para a protecção dos deuses e dos espíritos bons dos sobas, cuja vida ficou para sempre na memória do seu povo. Depostas, de novo, as facas aos pés de camuári, os feiticeiros prestaram culto, acompanhados por todo o povo, á árvore sagrada onde passou a viver o espírito do soba.
E amanhã, e sempre, os lundas dessas bandas dirigir-se-ão aos manes dos seus antepassados, por intermédio do espírito do soba, cativo dessa árvore de culto por amor do seu povo.

Fonte: Almanaque Diário de Notícias (1954)
Texto/Autor: Castro Soromenho (Do livro «Rajada e outras histórias»)
Foto do texto
𺰘¨¨˜°ºðCarlosCoelho𺰘¨¨˜°ºð

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

1940

Passam os anos!
Lá vão, em cavalgada,
a perder-se na bruma do passado…

É a vida a renovar-se, sem cessar,
em dôr, em esperança,
em abismos de crime
e redentoras claridades.
Um ano, outro ano, e sempre, e sempre…

É a vida a reviver em cada hora
em amor, em lutas e saudades.

O tempo que lá vai!
Datas heróicas
foram assinalando, em luz, no nosso céu,
padrões de glória, imorredoira e bela!

Portugal nasceu
Numa hora bendita de heroísmo e graça.

E sempre, até agora,
brilhou bem viva e alta a sua estrêla,
a marcar um roteiro de beleza
nos destinos da raça!

E o tempo sem parar…
Passaram tempestades,
perigos e grandeza,
feitos prodigiosos
e ameaças de morte…
Mas nunca sucumbiu a Pátria Portuguesa!

Nas horas de epopeia,
como nas horas más,
foi grande, nobre e forte!

O tempo que lá vai!...
Um ano, cem, duzentos,
muitos séculos já,
na história do Mundo.
E hoje, Portugal, fiel à sua sorte,
recorda aquela hora
em que, a primeira vez,
a bandeira sagrada
da nação que nascia
foi erguida, num gesto
de força e de alegria,
por um valente braço português!

Um ano, outro ano, iguais em seu rodar…

E o tempo vai passando…
O mundo, em ansiedade,
entre a guerra e a paz,
mal se atreve a sonhar…

para nós é diferente
o ano que começa.
Não é como ameaça
que a nossa alma o vê.
Ano de esperança e fé,
de orgulho e confiança!
Êste ano traz consigo
a data evocativa
do sonho de Afonso Henriques
feito realidade!

Um sonho que é hoje Portugal,
a pátria heróica, eterna,
aos pés da qual
a nossa alma ajoelha, e reza, e crê!

Fonte: Almanaque Bertrand
Texto/Autor: Maria Lamas
Foto da Net
𺰘¨¨˜°ºðCarlosCoelho𺰘¨¨˜°ºð

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

O Colar de Pérolas


Maria Luiza acabava de tomar banho quando a criada lhe anunciou a visita de um agente da Sociedade de Publicidade Teatral. Qualquer outro importuno tê-la hia procurado em vão, mas como se tratasse de um agente de publicidade, ordenou imediatamente que o fizessem entrar para a sala.Ela, que até ali não passara de uma artista de terceira categoria, que ainda não tivera no teatro outra aplicação que não fôsse a de despir-se, nem outro valor além daquele que pode representar um amante rico, pensou de si para si, que o estranho que acabava de lhe bater à porta, talvez trouxesse um contracto vantajoso, e, quem sabe, se uma entrevista na primeira página do jornal.
Maria Luiza vestiu um pijama de sêda, calçou umas chinelinhas, mirou-se no espelho e apareceu na salêta com o melhor dos seus sorrisos.
- A quem tenho a honra de falar.
- João Reis. Agente da Sociedade de Publicidade Teatral.
- Que pretende?
- Vou explicar-lho em duas palavras.
E, tomando atitudes de grande personagem, expoz o fim da sua visita.
- Considero uma injustiça que uma artista talentosa como V. Ex.ª, (Maria Luiza sorri. Parece concordar) não tenha no teatro o lugar de destaque que lhe compete.
E’ provável que a sorte a não acompanhe, mas é preciso que V. Ex.ª não se abandone ao destino; é preciso lutar! Não está certo que uma actriz bonita como V. Ex.ª, uma artista com A, como V. Ex.ª continue a interpretar papeis de terceira ordem! (Maria Luiza, confundida com tanta amabilidade, ofereceu-lhe uma cadeira). E’ uma injustiça, repito. – Muito obrigada!
Ela esboça o mais lindo dos seus sorrisos; êle, continúa sem esmorecer.
- Posso garantir-lhe que, muito brevemente, será V. Ex.ª quem interpretará os primeiros papéis no seu teatro! Sou eu quem lho prometo.
Maria Luiza não compreendêra ainda quais eram as intensões do seu interlocutor, mas aquelas referências à sua pessôa enchiam-na de confiança. E, radiante, como uma criança pequena a quem dão brinquedos, perguntou:
- Para isso, que é preciso fazer?
- ouvir-me, replicou o agente. A que se devem os sucessos? Ao reclame, unicamente ao reclame. E’ êle que atrai os olhos, que provoca a admiração e mantém as posições adquiridas. Quando um artista cai no esquecimento, só tem uma defeza: o reclame. Para o fazer prepara-se um desastre, ou provoca-se um escândalo se preciso fôr. No dia seguinte os jornais publicam o retrato do artista visado e fazem uma reportagem desenvolvida. Imediatamente se enche à cunha o teatro onde êle trabalha. Pois Bem! Nós pensámos organizar scientificamnete este reclame e, foi nesse intuito, que se fundou a Sociedade de Publicidade Teatral, à qual eu tenho a honra de pertencer.
Maria Luiza escutava sofregamente. Ele continuou:
- Mas vamos à prática. O desastre e o escândalo são geralmente perigosos. Nós , preferimos o roubo… Não se assuste! E’ um roubo sem consequências. A cliente escolhe o objecto que desêja ver desaparecer. Por exemplo: O automóvel, um anel de preço, um colar de pérolas, uma camisa modelo de luxo… O objecto roubado fica em poder da Sociedade e a cliente apresenta a sua queixa. Os jornais sob as nossas indicações baseiam-se em pistas erradas, e, quando a curiosidade do público atinge o máximo, o roubo aparece num lugar imprevisto. Veja V. Ex.ª o que não representaria de publicidade se a sua camisa fôsse encontrada numa gavêta da secretária dum escritor de nome!!... Dêsde já lhe podemos garantir um esplêndido resultado. O preço, a combinar. De resto V. Ex.ª só pagará depois de lhe ter sido restituído o furto.
Maria Luiza estava extasiada. Ia decidir-se a sua carreira.
_ Agrada-me a oferta. Mas, diga: o que me vai roubar?
- V. Ex.ª dirá …
Ela exitou um instante, mas de repente, levando as mãos ao pescôço, exclamou:
- Pode ser o colar de pérolas que o Carlos me ofereceu. Vale bem trinta ou quarenta contos…
- Bôa ideia! Irei busca-lo esta noite ao seu camarim.
-E’ muito amável.
- Ainda é cedo para me agradecer. Depois…
Quando Carlos chegou, à hora do almôço, Maria Luiza, radiante, saltou-lhe ao pescôço.
- Graças ao colar que tu me deste, vou ser finalmente uma «artista»…
O amante quis saber o que se passava, mas inutilmente. A resposta era sempre a mesma.
- Tu verás! E’ uma surpresa…
Conforme estava combinado, à noite, o colar que ficara abandonado no camarim, desaparecêra. Maria Luiza por pouco não bateu as palmas de contente, esquecendo que era necessário representar a comédia… Então, gritou, chorou desesperadamente.
Depois do espectáculo, a futura estrêla, apresentou queixa à polícia. O chefe, incrédulo, tomou conta do caso, mas não se convenceu da sua veracidade.
No dia seguinte, Maria Luiza devorou todos os jornais e nem uma linha sequer acerca do seu colar. A dúvida apoderou-se dela. Esperou um dia mais, dois dias, três dias… Do agente nem novas, nem mandados… Do colar, muito menos… quando se convenceu que tinha sido roubada, confessou ao Carlos a sua desgraça… as o amante é que não quis acreditar.
- Bem te conheço!!... Como não gostas do colar que te dei, inventas-te essa história para vêr se eu te comprava outro…


FIM

Fonte: Almanaque D’«O Seculo»
Texto/Autor: Desconhecido
Fotos da net
𺰘¨¨˜°ºðCarlosCoelho𺰘¨¨˜°ºð

sábado, 18 de novembro de 2017

Uma manada de elefantes



Fui até final da minha tarefa acompanhado sempre pelo meu amigo T.C.
E à sua amável e preciosa companhia, devo – o tornar-se o serviço de que eu ia incumbido – no melhor, mais grato e inesquecível momento de toda a minha vida.
Trinta dias levou o recenseamento da população indígena da área do meu posto. Trinta dias, pois meu espirito viveu as maiores emoções e, meus olhos viram, as mais curiosas e estupendas manifestações da Natureza.
Estes trinta dias, porem, são hoje para mim, trinta fantasmas de saudade!...
Pois, só quem viveu em África; só quem – como eu – parou no coração da selva; em contacto directo com o perigo; nas solidões imensas da floresta; nas profundas e misteriosas noites do sertão; pode dizer, sentir, viver, compreender o encanto e a saudade que nos fica – para o resto da vida – ao acharmo-nos longe, dessas terras, vivendo delas só pelo coração, e, pelo que a retina. Maravilhada, fixou.
*
*   *
Iniciámos a nossa retirada logo após a conclusão dos meus trabalhos.
T.C., aproveitando sempre a belesa das manhãs, convidava-me a marcharmos afastados da caravana.
Procurava, assim, o encontro furtuito com a caça, dando-me ao mesmo tempo o prazer de observar! Observar sempre!
Pois, o meu amigo, bem conhecia a minha satisfação em cada costume novo observados nos animais isso para mim – e ele bem o sabia também – valia mais que matar!
Eram passados vinte e oito dias desde a nossa partida para o mato.
Agora regressávamos.
E, a dois dias da chegada ao M… já quasi havia arrefecido em mim aquela cegueira de estar sempre á espera de encontrar féras. Mas, o acaso ou destino, marcado havia já que um novo espectáculo se oferecia antes da chegada.
E, desse modo, na ante-véspera, já pela noite alta aí por volta das três da manhã fomos acordados ao
- Siô o po n jánba! (1)
Levantámo-nos de chofre.
Saltámos fora do carro e, de espingardas aperradas, dispusemo-nos a vender cara a vida…
Bem problemático seria, no entanto, o resultado da nossa defesa. Mas o instinto da conservação imperava.
Lado a lado, com as espingardas fortemente seguras, lançamo-nos para a frente.
Circundámos o acampamento e… parámos; aguardando, de olhos fitos no mato, o aparecimento dos elefantes!
A noite mantinha-se silenciosa e escura.
A lua há muito declinára. E, o sol, tarde viria iluminar as trevas que nos envolviam.
Somente, lá no alto, as estrelas – olhos brilhantes da Providência – testemunhavam o nosso sobressalto.
Passaram-se dois minutos de angustiosa espectativa.
Súbito, o chão tremeu.
Ouviu-se um rápido e violento estalar de árvores e de ramos. Uma rajada imensa passou por nós, como um furacão. E a terra , pareceu convulsionar-se em terrível tremor subterrâneo.
Passou-me um calafrio pela espinha.
Tive a impressão que ia ser enlaçado pela tromba dum elefante e lançado pelo espaço fóra.
Nervosamente, procurei o olhar do meu amigo. Quis lêr na sua fisionomia a grandesa do perigo. Mas enganei-me! O seu rosto – salvo a expressão fixa da atenção – estava duma calma absoluta! Parecia desafiar aquilo que eu temia – o ataque dos elefantes!
Todavia, o caso não era – e pelo menos ele assim mo disse depois – senão para sustos.
Mas, esse companheiro preciosíssimo dava-me uma confiança absoluta. E’ que, seu caracter, seu tipo, seu temperamento, eram perfeitamente harmónicos com as qualidades conferidas aos heróis lendários.
Bastava vê-lo, num momento como este, para adquirir-mos a certesa de se estar vendo um herói, um dominador, um forte, um homem nascido no perigo e para o perigo.
No entanto o meu receio subsistia.
Aquele infernal parecia cada vez mais próximo de nós.
Felizmente que T.C. calculando o meu susto na razão directa dos meus conhecimentos de caça ás feras, deu-se pressa em tranquilisar-me.
Assim, dando provas dumas grandes faculdades perceptivas, diz-me , no meio daquele cáos de ruidos – numa calma de espírito espantosa – e debaixo daquele escuro ambiente de pavor:
- Afastam-se!...
Olhei-o admirado e confuso…
E , mentalmente, perguntei como pudera ele, tão rapidamente e no meio de semelhante confusão de ruidos, distinguir que os elefantes se afastavam?
- Não viriam, antes, sobre nós?
Mas, essa afirmação era o seu segredo profissional; era o seu forte.
Pois, de facto, parecia que fora ele quem ordenara o afastamento dos elefantes: a retirada da «Bêsta do Apocalipse», que ainda há bem pouco, quasi presentira a devorar-me…


Passada a primeira impressão, quando o ruido da manáda já se extinguia ao longe, voltámos para o carro.
Só, então, o meu amigo se abriu e, pausadamente, como se dissesse a coisa mais natural dêste mundo, ao mesmo tempo que se estendia sobre a cama, exclamou:
- Sabe, meu amigo, desta vez “tive mêdo”!
-Mêdo?
E já titubeando, cheio de sono:
- Sim. E vou explicar-lhe porquê: - Não é fácil assistir-se ás corridas destes animais e ficarmos com o arranjinho e a coragem tal e qual a tínhamos no principio. O elefante, em plena selva, destrói – na maioria dos casos – tudo quanto se opôe à sua passagem.
Depois, consultando o seu pequenino relógio de pulso acrescentou: - E’ tarde, amigo, vamos dormir.
- Mas é que.
- Sim! Pois não quere, logo que amanheça, perseguir a manáda?
- E’ verdade – concordei.
Adormecemos.
Quatro horas depois estávamos a pé e, em breve, equipados para a perseguição.
Montámos nos nossos cavalos e acompanhados por três negros entrámos no rasto dos elefantes.
Era uma manáda colossal!
As pégadas crusavam-se e sobrepunham-se não nos deixando compreender o numero de animais de que a manáda se compunha. Andámos quasi meio dia.
O desânimo começava a apoderar-se de mim, pois receava voltar para traz sem ter conseguido ver, novamente, os elefantes em plena selva.
O receio de me afastar muito das proximidades do posto, - onde já estava – a força escaldante do sol e o calôr exalado da terra, quebravam-me a energia, fazendo-me pensar em desistir.
Cheguei mesmo a esboçar ao meu amigo essa resolução. Mas, ele, dissuadiu-me de tal, garantindo-me que em menos de um quarto de hora voltaríamos a ver os elefantes. De facto assim aconteceu.
Novamente, meus olhos, sempre sequiosos de ver bebiam, ávidamente, os contornos do quadro que se me deparava.
E, por indicação de T.C. – que há muito procurava qualquer coisa, que eu só mais tarde percebi o que era – subimos a uma árvore e dela atentámos nos elefantes.
Então, a minha natureza, sempre disposta a exclamações, em breve caía na interrogação:
- Porque é que os elefantes, volta e meia, rojam a tromba pelo chão, apreendem a terra, atirando-a depois ao ar?
Novo sorriso, enigma, do meu amigo e sua explicação:
- Estão vendo se na sua frente está algum inimigo!... não viu há pouco, antes de subirmos a esta árvore, os cuidados que tive em procurar o ponto donde o vento soprava?
- vi de facto, mas não percebi nessa altura que o meu amigo procurava a direcção do vento, nem consigo perceber agora que relação pode existir entre essa preocupação e o capricho daqueles animais.
- Capricho?! – Diga antes: inteligência! – Pois, saiba amigo., que não é possível a ninguém aproximar-se do elefante ou de qualquer outro animal – da chamada caça grossa – sem antecipadamente conhecer a direcção do vento. E, se até hoje temos conseguido chegar – como agora – até à vista destes animais, sem eles o pressentirem, devemo-lo a esse cuidado, que eu tenho mantido, sem nunca lho dizer, a fim de lhe proporcionar mais esta curiosa observação.
- Quere, então, o meu amigo dizer, que eles atiram a terra ao ar para consoante a direcção que o pó leva se virarem contra o vento e beberem os odôres que os ares trazem, conhecendo dêsse modo a aproximação do inimigo?
- Assim é, meu amigo.
-!...
Voltámos para trás. E no dia seguinte à noite, entravamos no meu «posto».
Assim terminou o meu serviço e a amável companhia do meu amigo, que voltou para o mato…

(1)             Os elefantes

Fonte: Jornal Infantil Tic-Tac n.º 2 (1932)
Texto/ Autor: Fidalgo dos Santos
Foto da Revista
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terça-feira, 17 de outubro de 2017

A Porta de Minerva


Da noite vinha o mistério das coisas, o deformar das sombras, nas ruas estreitas e escuras por onde Bernardo Cabral, com o colarinho manchado de sangue, ouvia o écoar dos seus passos e dos que o seu amigo Inácio Gaio, quintanista de medicina, dava a seu lado, discreteando conselhos de boa prudência. As praxes académicas eram violentas e primitivas, mas a única atitude era levá-las a rir. Bernardo não reagira assim deante da primeira troupe que lhe surgiu ao descer o comboio, e embrulhara-se em confusa refrega.
Aquela cidade medieval, de ruazinhas apertadas e tortuosas era o cenário sugestivo onde os poetas eram grandes poetas, os boémios grandes boémios, onde os amores eram belos e fáceis, e donde se bebia, em pura fonte, a segura ciência dos livros e da vida. Coimbra era sonhada como a porta que depois se abriria triunfal sôbre o mundo.
Ao chegar à Real República dos Kágados, onde Inácio lhe tinha arranjado um quarto, tomou contacto com alguns companheiros da casa que o farejaram como a matilha fareja a caça encovada.
Nessa república, famosa entre a academia, conhece uma variada galeria de figuras: os veteranos Manuel Vaz, célebre pela usa força, inteligente e espirituoso; o «Marçalinho», africano de carapinha e pele tostada, herculeo, bonacheirão e simpático, que andava há dez anos em Coimbra e tinha pendurados à janela dois enormes caixotes com galinhas, como aves raras, que muito estimava e cujos ovos vendia à república; o Gil-da-trompa, que ficava à janela até de madrugada a dar piadas a quem passava, tinha tudo no prégo e dormia no chão, com jornais e a capa a fazer de cobertor e por cima uma prancheta de madeira «para fazer pêso»; o Torcato-das-pistolas, que andava a estudar Anatomia e sempre que passava uma página adeante, definitiva e sabida, lhe dava um tiro; o Alpoim, pedante e autoritário, etc.
Com Inácio gaio e Manuel vaz, entra no mundo da boémia e, entre as aulas, as cenas da praxe académica e as noites de vagabundagem, vai decorrendo o tempo.
Estabelece casualmente relações com Mr. Ardisson, um velho Inglês que acabava de chegar a Coimbra com a filha, uma formosa rapariga, de cujos olhos azuis Bernardo fica com saudades. O Inglês é um desses tipos originais e fleugmáticos que fôra casado com uma senhora portuguesa, demorando-se agora em Coimbra, numa pausa de divagação turística e a quem os estudantes, ao verem-no aparecer um dia todo de branco – o que nunca ali se tinha visto – fizeram uma troça sensacional e sóbria: foram formando atrás dêle, uma longa bicha, a um e um, silenciosos e sérios; e primeiro dez, depois trinta, depois cem, por fim uma cobra infinita, cuja cabeça branca era Mr. Ardisson, indiferente como se não os visse, coleava através das ruas da cidade, subia à Alta, perdia-se por entre as casas. Quando Mr. Ardisson, ao cair da tarde, regressa ao hotel, só então, de entre a porta, se volta para trás e tira o chapéu, agradecendo e recebendo uma manifestação apoteótica como vivas à Inglaterra e ao Rei da Lata.
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A queima das fitas, em que os quartinistas recebem as fitas largas e os caloiros são emancipados, é uma festa estrondosa e delirante. Mas naquele ano surge, durante a passagem do cortejo, um conflito com os frutricas, que tem consequências trágicas e põe a cidade em estado de sítio, com tiroteio pelas ruas, assaltos às repúblicas, mortos e feridos.
A academia, em sinal de protesto contra as autoridades da cidade, abandona Coimbra, que fica com o ar de uma cidade deserta.
Passa as férias na quinta onde os pais vivem, numa aldeia da Beira, caçando e correndo os montes, com o seu amigo Pedro e a irmã deste, Maria Teresa, uma rapariga moderna e graciosa, filhos dos donos de uma propriedade próxima, com quem tem relações de amizade fraternal.
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No ano seguinte, quando Bernardo volta a Coimbra, já não é o caloiro ingénuo e incipiente. A sua personalidade começa a marcar-se e a dar-lhe prestígio entre os do grupo de que faz parte, agora como bom elemento. Toma contacto com os literatos e é iniciado nas conjuras políticas. Volta a encontrar Elisabeth, a filha de Mr. Ardisson, num baile em honra de uns congressistas estrangeiros e tenta um flirt sem resultados.
Já não pensa nela quando um dia a encontra com outra senhora um pouco mais velha, a sua prima Catarina, cujo pai, português, vive em Joanesburgo.
Esta é uma mulher de vinte e cinco anos, com um ar civilizado e inteligente, mais interessante do que bonita, ou pelo menos assim o parecia ao lado da belesa vistosa de Elisabeth. Mas Bernardo sente naquela mulher uma presença forte e dominadora. Convidam-no para lhes servir de cicerone no Buçaco e partem no automóvel de Mr. Ardisson. Bernardo julga ver em Catarina, (Kate) os olhares interessados duma mulher que pode ser uma aventura fácil. Perdidos na mata do Buçaco, depois de vários episódios que preparam a cena, no momento em que ela se agarra a êle ao saltar um barranco, beija-a. Mas compreende o equívoco de sai vexado pela atitude tolerante e sorridente daquela mulher superior e livre. Antes disso tinham-se desenhado, da parte de Elizabeth, atitudes que Bernardo interpretou como sendo dum vago ciúme. Mas regressa a uma posição de afastamento e de prudência.
Kate gostava de ouvir uma serenata e Bernardo promete-lha. Essa noite é o início duma aproximação mais justificada. E êle começa a estar verdadeiramente interessado.
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O ambiente académico é agitado por vários conflitos e lutas politicas, que se vão intercalando na acção. As aulas, que decorrem numa atmosfera sonolenta e não o interessam, são uma coisa abstracta e alheia à vida; entre os alunos e os professores há a separação solene e desdenhosa de que resulta uma atmosfera de vaga hostilidade da parte dos que não se vergam a uma sabujice proveitosa. Os incidentes são vários. E Bernardo, com uma indiferença total, vai estudando pouco, fazendo versos, amando e intervindo em movimentos que também o entusiasma pouco, pela sua ideologia acanhada e pobre.
Os amores com Kate tinham tomado um rumo definitivo, mas Elizabeth, certa noite ouve barulho e vê alguém que salta a grade do jardim. Diz supôr que é um ladrão que ronda a casa e, falando da sua perícia de atiradora, resolve dar-lhe caça, se êle voltar. Kate, com quem eram as aventuras nocturnas, assusta-se com a prevenção cujo alcance compreende. Elizabeth sabia que o mistério não era de ladrões e acentua subtilmente a sua ameaça. Bernardo, avisado por Catarina, toma as cautelas necessárias, mas uma noite, sente o perigo da aventura.
Kate resolve confessar a Elizabeth quem é o visitante nocturno que ela viu no jardim, desarmando assim as suas intenções. O drama escondido de Elizabeth destapa, então, uma ponta do véu que o oculta. E os dois amantes regressam à sua liberdade sem sombras inquietadoras. Até que a festa da Queima da Fitas, em que Bernardo toma as fitas de quintanista, trás a Coimbra os pais dêle, com quem veio Maria Tereza, a sua amiga de infância. Já não a via há três anos. Parece-lhe outra. E atira-lhe uma flôr do carro, não pondo nisso qualquer intenção de galanteio. Kate viu o gesto e, sem ciúmes, pois sabia que não era caso de tê-los, vem mais tarde a meditar nos sentimentos de Bernardo para com ela e pensa que êle a admira e deseja mais do que a ama. Se isto, ao princípio, não lhe interessara até ao ponto de o esclarecer, agora sentia a inquietação de conhecer a verdade. Mas sabe que estando perto de Bernardo o dominará sempre. E resolve partir para Joanesburgo, onde irá passar um ano, pois deixou lá todas as suas coisas e tem necessidade de voltar. Bernardo tenta desviá-la dêsse intento, mas acaba por aceitar a separação temporária. Acompanha-a a Lisboa e Catarina parte, dizendo tencionar demorar-se só três mêses.
Bernardo volta para Coimbra. Depois vai passar férias a casa dos pais. Leva os livros de estudo, isola-se. O seu amigo Pedro regressou de Berlim, engenheiro e militarista, admirador da cultura e da força prussianas; sua irmã Maria Tereza é uma presença doce e alegre que Bernardo sente sem pensar. Para se entregar mais completamente aos livros, fugindo ao convívio com aqueles dois amigos, sobretudo para evitar a presença de Maria Tereza, refugia-se na pequena casa duma quinta longínqua, perdida entre os montes e pinheirais, na falda da serra. Na casa abandonada onde só vive o caseiro velho, a mulher e uma filha, as noites dum silêncio pesado, cercam-no da sua solidão de exílio. Das trevas só vem o rumorejar dos pinhais, o uivo dos lobos e o piar das corujas à caça.
Ao cair duma dessas noites de ambiente denso e inquietante, ouve lá fora uma voz que chama de longe, apagada e indistinta. Vai à janela e ouve o mesmo grito distante, entre os pinhais. Acorda o caseiro, pega na espingarda e, à luz duma lanterna, seguem na direcção da voz que se calara. Encontram Pedro com a irmã nos braços. Tinham vindo dar um passeio para aqueles lados e quando iam já de regresso a casa, ela caiu e partiu uma perna. Na impossibilidade de montar outra vez a cavalo; Pedro tentara chegar á aldeia mais próxima, mas o pesado fardo esgotara-lhe as forças. Bernardo levanta maria Teresa do chão e transporta-a até casa. É uma cena dramática.
A estrada é dali a seis quilómetros por caminho de serra. É preciso ir alguém na frente para chamar um automóvel que os venha esperar. Mas Pedo não conhece bem os atalhos, de noite, e tem receio de se perder. Bernardo improvisa uma padiola para transportar Maria Tereza. Com o velho à frente, de lanterna na mão, partem, mas ao fim de pouco tempo, Pedro não pode mais. Quere que esperem ali. Bernardo não concorda e pegando sozinho em Maria Tereza, que tem sempre o mesmo sorriso doloroso, sem um gemido de dôr, continua a caminhada. Os sentimentos de Bernardo definem-se no decorrer daquela situação e sente o que Maria Tereza é para êle. Ao chegarem por fim à estrada, esperam ali.
Quando os faróis do automóvel dão de repente na cara de Bernardo, Maria Tereza nota-lhe a expressão triste e endurecida. Há um breve diálogo em que as palavras veem pesadas e presas ao que fica por dizer.
Mas no dia seguinte Bernardo regressa ao seu isolamento.
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Volta para Coimbra, faz acto do quarto ano. Vem, em seguida passar uns dias de férias a casa, e dá-se a aproximação decisiva com Maria Tereza. Pouco tempo depois regressa, novamente à velha cidade universitária. Estuda, afunda-se na ciência convencional e poeirenta dos livros de direito. Naquele ambiente vive o último ano lectivo. As cartas que ainda recebe de Kate são como a correspondência dum amigo íntimo. Mas sente-se fechado, cercado, entre livros e paredes. Tem necessidade de se libertar depressa daquela atmosfera de Coimbra, da vassalagem a um espírito enquistado que se lhe mete deante das ideias e dos outros livros que lhe interessam, tolhendo-o como um fato apertado a prender-lhe os movimentos do corpo e do espirito.
O acto de formatura é o ponto final daquela vida agitada, de que sai com uma experiência negativa, mas útil pelo inconformismo e pelo conhecimento que dela resultou.
Ao sair da sala de actos, aprovado, os condiscípulos e os amigos rasgam-lhe a farpela, deixando-o totalmente nú, como é de praxe. Então sente nisto o gesto simbólico e inconsciente de quem lhe arrancasse a camada artificial inútil que se lhe pegara à pele, e o mandasse, puro, limpo e liberto, entrar enfim no verdadeiro caminho.
E debaixo da capa que o vento agitava, parecia-lhe ser agora, em plena força, um homem livre.

Fonte: Revista Ver e Crer N.º2 (1945)
Texto/Autor : Branquinho da Fonseca
Foto da net
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