sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Sem tréguas à vista


O senhor Ribeiro tinha razão: o sobrinho era mesmo trabalhador. Chegava de madrugada e saía antes das sete da manhã. Era preciso ser mesmo empenhado no que fazia… A cozinha estava deserta quando desci. Preparei um café e uma torrada. Enquanto comia, comecei a ficar irritada com a cena anterior. O Rafael podia ter-se apresentado ou dito bom dia! Até o cão tinha sido mais afável do que o dono! Ao menos, não ia ter de conviver muito com ele! Melhor assim, estava farta de ter de manter a máscara de simpatia.
Depois de comer, tentei ligar para a Beta. Telemóvel desligado, como seria de esperar àquelas horas da manhã. Voltei ao quarto, arrumei a cama e fiquei sem nada para fazer. A casa escura, de janelas fechadas, não era acolhedora. O sol brilhava lá fora, a convidar-me para uma caminhada.
A fazenda ainda tinha uma boa dimensão; nas traseiras da casa, estendia-se uma plantação de videiras até onde a vista alcançava, e elas estavam bem cuidadas, ao contrário do jardim. Caminhei ao longo do carreiro, imersa em pensamentos. A tensão matinal desapareceu com a vista maravilhosa para a serra… Quando dei por mim, estava frente a um córrego de água límpida. Sentei-me com os pés dentro de água e, pela primeira vez desde que cheguei ao Norte, senti-me contente. Deixei-me ficar por ali, embalada pelo som constante da água, enquanto decidia o que ia fazer a seguir. Podia regressar à casa de Rafael e esperar por notícias da Beta. Não estava com grande vontade de ficar parada a olhar para as paredes até que ela se lembrasse de mim. Mais valia ter ficado na cama. O primo do André fugiu a sete pés e só o Tyson tinha sentido um genuíno interesse em mim.
A casa da dona Júlia não devia ficar distante dali. Se ao menos tivesse fixado o caminho, podia ir andando até lá. Assim não ficava parada à espera. Detesto esperar! Pareceu-me ser uma boa solução. O pior que podia acontecer era perder-me e ter de andar para trás. Não tinha nada a recear, trazia a mochila, o telemóvel e uma garrafa com água.
Convencida de que era a melhor coisa a fazer, tirei os pés de molho e calcei os ténis. As calças azuis ficaram sujas de terra, mas não ia importar-me com um pormenor desses. Quando cheguei ao meio da vinha, deparei-me com um empregado do Rafael, que indicou-me um atalho para a casa dos pais do André. Garantiu-me que, em 15 minutos, estaria lá.
Meia hora depois, dei por mim no meio de um pinhal. A vinha ficava a uns 20 minutos e o meu destino não parecia ser mais perto. Aquele caminho não deveria ter muito uso. A vegetação cobria o chão. Flores silvestres cresciam ao lado de árvores de vários tipos e tamanhos. Se não estivesse irritada por não saber onde estava, nem que direcção devia seguir, podia ter-me sentido tentada a explorar as redondezas.
Encontrei o riacho que o empregado me tinha dado como ponto de referência. Segundo ele, era só segui-lo e ia dar logo com a propriedade da família Ribeiro. Talvez tenha sido a falta de atenção ou apenas um golpe de azar: tropecei na raiz de uma árvore e rebolei por um declive. Fora o susto, continuava inteira. O orgulho ferido e o tecido da túnica rasgado contribuíram para aumentar a minha irritação.
Fiquei sentada no chão durante uns minutos. Controlei uma súbita vontade de chorar. Aquela visita ao Norte não estava a ser nada como tinha imaginado. Nem era o contratempo de ficar na casa de um desconhecido nem tão-pouco o facto de ele ser arrogante e mal-educado. O meu desalento podia não ter explicação, mas também não era nada oportuno. Ao relembrar a minha queda deselegante, o meu sentido de humor venceu a batalha. Desatei a rir, ali sozinha, no meio do pinhal. Meti-me a caminho, desta vez com mais atenção aos obstáculos. Mais dez minutos e estava no pátio da casa Ribeiro. Reparei que estava um carro estacionado ao lado do meu. O pai de André devia estar em casa. Ainda bem, assim não tinha de aturar a tagarelice da dona Júlia.
A porta estava aberta e eu podia ouvir vozes na cozinha. Hesitei antes de entrar. Se calhar devia chamar primeiro, antes de invadir a casa. Provavelmente, a não ser que desse uns bons berros, eles não me ouviriam. Acabei por entrar, com cuidado para não fazer barulho. A minha intensão era chegar perto das escadas, que ficavam próximas da entrada para a cozinha, e chamar pela dona Júlia. Como de costume os meus planos deram para o torto. Com uma rapidez inexplicável, aconteceram três coisas que me colocaram numa posição embaraçante: ouvi uma voz facilmente identificável comentar: “Não tenho nada contra a amiga do André, mas para mim, todas as mulheres são um problema. Quanto mais depressa ela sair da minha casa melhor!”
Tyson surge do corredor e pula para cima de mim; não aguentei o peso e caí desamparada em cima de um degrau.
A barulheira  chamou a atenção da dona Júlia e de Rafael, que apareceram á porta da cozinha, com um ar alarmado. Tyson continuou em cima de mim, presenteando-me com lambidelas molhadas de alegria canina. Obedecendo à voz de comando do dono Tyson libertou-me do seu peso.
- Grande susto que me pregou! Como é que veio cá parar?
A dona Júlia tinha todo o direito de saber porque é que lhe tinha invadido a casa. Mais uma vez, antes que conseguisse responder, ela atalhou:
- O que é que lhe aconteceu? Tem a roupa suja e rasgada! -  só a intervenção de Rafael permitiu que eu me explicasse.
- Tia, deixe a rapariga falar!
- Peço desculpa. Levantei-me cedo e, como a Beta não atendia o telemóvel, caminhei até aqui.
- Oh, Rafael, então não podias ter trazido a Adriana? – Era uma pergunta pertinente. Ele ficou com o mesmo ar severo e respondeu:
- podia, se soubesse que ela queria boleia…
Aquela resposta foi a gota de água! Então, ele tinha-me virado as costas, sem sequer me dar os bons-dias, e agora a culpa era minha!
- Se o senhor não tivesse saído tão rapidamente, eu talvez tivesse tido oportunidade para pedir-lhe boleia!
A conversa tinha todos os ingredientes para azedar. A dona Júlia percebeu que havia algo estranho e interveio.
- Não vale a pena chorar sobre o leite derramado. A Adriana tem de desculpar o meu sobrinho, ele não fez por mal. Venha comer que, de estômago cheio, vai ver que fica logo mais bem-disposta.
- Obrigada, mas não tenho fome. Queria ver a Beta.
- Ah, mas ela ainda está a dormir. É cedo para acordá-la.
Mais uma vez senti-me a estorvar os planos daquela família. E a Beta nem sequer se lembrava que eu tinha vindo com ela; continuava a dormir profundamente. Deu-me uma enorme vontade de subir as escadas e ir acordá-la à bofetada. Sim senhora, implora-me para vir com ela e choraminga com medo da sogra. Uma vez chegadas a Chaves, age como se fosse normal impingir-me a casa de um desconhecido. Ainda por cima, um desconhecido que demonstrava claramente não me querer acolher…
A minha revolta transparecia no olhar. Rafael deve ter percebido, pois sugeriu:
- O melhor é ir mudar de roupa. Aproveito e vou a casa buscar uns documentos que me esqueci. Pode vir comigo, que depois deixo-a aqui.
- Boa ideia! – Dona Júlia concordou prontamente. – Assim dá tempo para a Beta acordar. E a Adriana não pode ir assim, nesse estado, para a cidade.
Mais uma vez decidiram o que eu devia fazer. Apeteceu-me fazer uma birra, como uma criança pequena. O meu carro estava mesmo ali à porta. Era só ir buscar a chave ao quarto da Beta e escapulir-me para Lisboa. O problema é que já não tenho idade para fazer birras. Sem outra alternativa, acedo e segui Rafael até ao jipe.
Ele não tornou a falar e eu também não meti conversa. Limitei-me a fazer o caminho com o olhar fixo através da janela. Em menos de cinco minutos, estávamos novamente na fazenda. Assim que abri a porta, o Tyson saltou logo do jipe. Entramos em casa e Rafael disparou um comentário brusco, no seu estilo habitual.
- Não se demore que estou com pressa.
Podia ter-lhe dado uma resposta torta, podia, mas não o fiz. Não ia dar-lhe a satisfação de mostrar como ele me irritava. Troquei de roupa rapidamente, escovei o cabelo e, satisfeita com a minha aparência, regressei à sala. Nem sinal de Rafael ou do cão. Sentei-me no sofá e esperei.
… (continua)

Fonte: Revista Maria
Texto: Fátima Pereira
Foto: Revista
𺰘¨¨˜°ºðCarlosCoelho𺰘¨¨˜°ºð

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

O Gil Sapateiro


Poh! Poh! Poh! – Fogem as galinhas, as vacas ensaiam uma corrida para a valeta, e ficam muito admiradas que os monstros tenham passado e elas quedem incólumes, sem lhes quebrarem sequer uma perna. A tia Maria Quitéria vem ao cancelo coscuvilhar. Estacaram, afinal com grande rompante e aparato senhorial, diante da taverna, os três automóveis. Podengos, grevas, escopetas em seus estojos, luvas amarelas, chapéus de pano inglês aos quadradinhos, é uma tartarinesca comitiva de caçadores. Largaram com a alva de Viseu, de Aveiro, do Porto em batida à serra, onde dizem que as perdizes são bastas a dar com um pau e os coelhos dançam a raspa nas clareiras.
- Venha o Gil Sapateiro!
O Gil Sapateiro, Nenrod impenitente sob os olhos do Eterno, não se faz rogar duas vezes. Ele é o guia encartado da Nave, tal como os dos Alpes, para toda a expedição cinegética que se preza. Ninguém conhece os andurriais melhor do que ele, e antes de mais nada chama-se uma espingarda de respeito. Os caçarretas da cidade é que são insuficientemente compreensivos e, em vez de lhe passarem para as mãos uma sarrasqueta suplementar, fazem-no alombar com o farnel, embora carregado de bons vinhos velhos e iguarias de lhes lamber o beiço, de que será comparte irmãmente. E ele então vinga-se. Vinga-se à maneira do Lazarilho de Tormes. Guia os belos caçadores pelas escarpas onde não tarda que deitem os bofes com as íngremes escaladas. Providencialmente lá está o manancial de água pura, e toca a beber. Bebem, fumam, lançam duas chalaças ao vento. Uns minutos de repouso, e ala mais arriba por trilho não menos excomungado, trepando morro após morro. Mas se o piso é áspero, as fontes a cada passo rompem da rocha, com a sua veia de cristal puro ou entoando a branca ladainha. Como o lobo da fábula, volvem a beber e nova cigarrada.
À hora de almoço, depois de tanta pançada na água, quando o estendal das comezainas rescende que consola e o vinho rutila nos copos, quem tem apetite de comer e de beber? O Gil. O Gil tira-lhe o ventre de misérias, aquela miséria ancestral, filha da sua condição e temperamento. Não é o perfeito lazarone, mas, para ele gaspear umas botas é operação mais custosa que palmilhar uma área de duas léguas debaixo de neve ou com o cieiro a cortar as orelhas como a navalha do Zé da Lajas, que leva coiro e cabelo. O Gil Sapateiro bebe no sangue generoso de Cristo como uma sanguessuga, como um areal no pino do Verão, como a equipagem de uma escuna inglesa na Travessa do Cotovelo. Caçada… de grilo!
O Gil sapateiro nem sempre leva a sua vingança até fecho. Posto que meio turvo do juízo, não raro pede a hamerless ao mais cansado ou mais desiludido dos caçadores, e encaminha a malta para trás de um cerro, logo ali a breves passos:
- Estamos no reino das perdizes. Agora é bombear-lhes, meus senhores!
Ao fim do dia, o Gil Sapateiro fez, ele só, mais cinto que todos juntos.
Um ano, o que não sucedia desde o princípio do seu mundo, o Gil Sapateiro tirou licença de caça e porte de arma. Era caçador furtivo acabado por contumácia e opinião, mas tantas emboscadas lhe armou a Guarda de três concelhos, tantos autos lhe ergueu, tanta gente ele incomodou para não malhar com os ossos na cadeia, que se resignou a pôr-se quite com a lei. Esportulou-se, mas não perdoou aos seus zelosos agentes. Gil é o turdetano que trás em dia as suas dívidas de gratidão e de ódio. Quando pelo monte lhe luziam ao largo os capacetes da Guarda, simulava de transgressor. A serra era grande e ele tinha pernas de gamo. Mais ele corria, mais as praças lhe corriam no encalço. Quando sentia que estavam esfalfadas, que rebentariam se lhes pusessem a mão na boca, detinha-se e desatava a berrar aos cães:
- Pega Janota, pega, lá vai o coelho!
- A licença?
O Gil apalpava-se, fingia o maior dos embaraços, punha-se de olhos em vago a consultar os botões, monologando:
- Não querem lá ver que a mulher acendeu o lume com ela! Coitada, foi para me assar as sardinhas…
Os guardas afivelavam a máscara farisaica que é própria do homem sempre que apanha o fabiano em falso.
- … a menos, a menos que não seja este papelucho… Os senhores sabem ler?...
O Gil Sapateiro é caçador de reiuna, chumbeiro e polvorinho. Pólvora e chumbo orça-os pela cova da mão. Bucha, pede-a ao musgo dos penedos ou do tronco das árvores. E o seu tiro prima por tão exacto que não o seria mais pesadas as doses em balança de joalheiro. Quantas vezes ombreando com um grupo de garbosos caçadores, dos tais de pena arvorada no chapéu de quadriláteros, a caça lhes rompo imprevistamente dos pés! Salva: bum, bum, bum! A lebre prossegue na sua rota. É a vez do Gil meter à cara… Com certa demora aponta a longa colubrina… dispara. Levanta-se uma nuvem de fumo – porque não é ele que dispõe da melindrosa e cara pólvora piroxilada – e lá está o bicho tombado sobre o flanco ou escabujando nas vascas da agonia.
Com os caçadores da aldeia Gil é o capitão. Ele é quem traça o rumo das montarias. Tal dia vai-se para os orgueirais da Nave. Os coelhos lá são densos como os pecados. Tal outro, bate-se a coutada de Águas Boas. Não deixam de saltar por lá duas maçaricas! Maçaricas são as lebres esbranquiçadas e de lombo mais amarelo que um velho chamalote.
De ordinário, ninguém é mais afortunado do que ele. Nos dias de macaca, pelas tavernas dos poviléus ou quando merendam, deitados à romana à sombra dos soutos, espoja-se na credulidade dos parceiros mais gozosamente que um galaroz no cisco das quintãs. Mormente se os pichotes cometeram o despautério de matar mais caça do que ele. Como passaram a santa manhã batendo monte, cada um se alivia do cinto, pendurando-o do galho de um pinheiro. Os cães enrolam-se em bicho de conta, mais fatigados que os amos á espera do osso ou naco de pão, partindo à unha, que caia do céu. Contemplam nostalgicamente os coelhos ajoujados pelo jarrete, com a mosca branca da cauda descaída para o lombo, as perdizes penduradas pelo bico, e vão pré-saboreando o migalho que lhes virá a competir.
Os caçadores comem, bebem, fumam, trapaceiam, lamentando-se do tiro chofrado ou celebrando a pontaria providencial neste ou naquele lance. O Gil Sapateiro, como atirador de cara e loquaz, é o tribuno por excelência.
- … Uma vez acabou-se-me o chumbo. Tinha dado num bando de perdizes, ariscas com o suão, e era vê-las tocar guizos para lá do campo de tiro. Carga a carga, quando dei conta não tinha bago no chumbeiro. O diabo foi que a certa altura vejo avançar uma lebre, aos saltinhos, tep-tep, tep-tep, furtada aos cães, de que se ouvia a maticada ao longe. Raio de azar! E agora? Era um pinhal e ponho-me por vício a escarafunchar nos bolsos, quando descubro um prego no meio do cotão. Ora, atiro com ele, um destes pregos caibrais maiores que os que crucificaram Cristo, para dentro da espingarda e, quando a lebre ia a atravessar, aponto, escondido por trás de uma giesta, disparo… Olho, lá estava a lebre, caramba! Uma lebre grande como uma casa. O mais bonito, querem vocês saber, é que ficou cravada nas orelhas contra um pinheiro. Dava salto de corça…
Os mais imaginativos ficam de boca aberta admirados e inocentes; os incréus riem.
- Assim Deus me salve, como falo verdade. Na caça, amigos, sucedeu destas maravilhas. Ainda haveis de comer muita rasa de sal para sairdes da cepa torta do laparoto trucidado no tojo e da rola assassinada no galho de um amieiro!
Façanhas e anedotas, entre caçadores, sucedem-se de cambulhada como as cerejas. É ainda ele quem conta como, num dia de Verão, voltando de Barrelas, de bicicleta, onde fora comprar pez para as linhas, uma lebre se esbarrou com ele. Atirou-lhe com a bola de pez, que se lhe colou no focinho ao que ia de mole. Vai, descia uma segunda, o macho, do outeiro do Santo Antão tão cega com o cio que veio mesmo marrar com a outra e lá ficaram as duas coladas, tão coladinhas, que foi só deitar-lhes os galfarros e pô-las á cinta.
Os cépticos respondem com vaias e gracejos. Os sisudos benzem-se. Ele jura por sua alma e de sua avó que foi assim mesmo. E acaba por ficar tão convicto da patranha forjada, que puxa para o Zé da Rocha, que se permitia duvidar.

Fonte: Almanaque Diário de Notícias (1954)
Texto: Aquilino Ribeiro
𺰘¨¨˜°ºðCarlosCoelho𺰘¨¨˜°ºð

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Um Adivinho á força


Reinava em Samarhaude o sultão Karam-Bou-Lady.
Era um soberano muito amado dos seus súbditos, que só lhe notavam um defeito: dar o «cavaquinho» pelas maçãs, adorá-las, apesar de já não ter dentes para as trincar. Nos jardins do seu palácio, havia um magnífico pomar, que despertava a cobiça de todos os cortesãos. Ái daquele que se atrevesse a tocar, sequer, numa maçã.
Contudo, apesar da mais rigorosa vigilância, as maçãs eram roubadas, não só pelos grandes da côrte, como também por alguns mancebos da cidade, que arriscavam a vida para poderem deliciar-se com tão excelentes frutos.
Até o próprio grão-vizir não pudera resistir à tentação; uma noite, escalou os muros do pomar, como um ratoneiro, para satisfazer a guloseima. Gostou e foi repetindo a proeza…
Ora um grão- vizir não passa despercebido em parte alguma, muito menos em cima de um muro alto. Os seus inimigos formaram uma conspiração, e, numa noite em que êle saboreava uma maçã sultana, (a melhor espécie do pomar) vis assassinos caíram sobre êle e matara-no, fugindo em seguida e deixando o cadáver abandonado, no local do crime.
Dois figurões, que também costumavam ir de noite dar assalto às maçãs do sultão, tinham visto cometer o crime. Um deles era Ben-Douda, um bôbo do palácio; o outro era um mancebo da cidade, chamado Ali. Apavorados com o caso, trataram de fugir; saltaram ao mesmo tempo o muro do jardim, mas tão grande era o seu terror que caíram estatelados, do lado de fora. No mesmo instante agarraram-se mutuamente, julgando cada qual que o outro era o assassino. Felizmente, reconheceram-se.
- Viste? – Perguntou Bem-Douda.
- Vi tudo! – Respondeu Ali.
- Um dos assassinos era o magnate Omar que desde há muito tempo não cessa de tramar intrigas, com o fim de ocupar o lugar do grão-vizir.
- Não podemos denunciá-lo ao sultão, sem que nos denunciemos igualmente. Porém, um crime tão horroroso não pode ficar impune!
- Tens razão… mas que se há-de fazer?
- Escuta – volveu o bôbo. – Amanhã, quando o sultão sair da mesquita, estaciona ali perto; eu, então, apresentar-te-hei, a Karam-Bom-Lady, como o maior adivinho do reino; êle decerto te conduzirá ao palácio. E uma vez lá «adivinharás» tudo o que presenceámos…
Estabelecido êste plano, os dois amigos separaram-se.
No dia seguinte, à hora combinada, Ali encontrou-se na passagem do sultão, ao qual foi apresentado por Bem-Douda. Como era de prever, foi convidado a ir ao palácio.
O sultão de Samarhande em breve ordenou que entrasse nos seus aposentos o famoso adivinho Ali, de quem Ben-Douda lhe contara maravilhas.
- Fala- disse o sultão. – Adivinha qual é o pensamento que me preocupa neste instante.
- Vossa alteza – respondeu Ali – está inquieto com a ausência do grão-vizir, que não se vê desde ontem.
- Acertáste! E que é feito dêle?
- Soberano senhor, o grão-vizir foi assassinado por infames ladrões de maçãs, quando, para bem servir a vossa alteza, vigiava o pomar.
-Mentes! – Exclamou o sultão, muito comovido.
- Estou-o vendo daqui! – Acrescentou Ali em tom inspirado. – Lá está êle, inerte e ensanguentado, ao pé da árvore que dá o fruto delicioso que vossa alteza prefere, a maçã sultana!
Karam-Bou-Lady enviou imediatamente alguns criados a averiguar o caso. Momentos depois, os servos voltaram, muito chorosos, confirmando o que dissera o adivinho.
- Os nomes dos assassinos?... – exclamou o sultão, estremecendo de raiva e de dôr.
Ali fingiu meditar profundamente. Tão grande foi o silêncio que se seguiu, que poderia ouvir-se voar uma môsca. Todos esperavam ansiosos, a terrível revelação.
Ali declarou finalmente:
- Os assassinos foram o magnate Omar e os seus partidários. Cometeram o crime, na intensão de Omar conseguir ser nomeado Grão-Vizir.
O siltão, pálido, comovido, não proferiu uma única palavra; estendeu o braço com a mão aberta, e, com um gesto violento, cortou o espaço da esquerda para a direita.
Bach-Siaf, o guarda privado do sultão, compreendeu perfeitamente a ordem enérgica do seu amo. Agarrou pela nuca o infame e cruel Omar, e, antes que êle tivesse tempo de dizer «ai», decepou-lhe a cabeça, q2ue foi cair aos pés do sultão.
Então Karam-Bou-Lady voltou-se para Ali e disse-lhe:
Nomeio-te adivinho da côrte, com a dignidade de mamamouchi de primeira classe.
Em seguida, ordenou a um camarista que desse a Ali um palácio, ricas vestimentas, soberbos cavalos e que lhe enchesse os bolsos de oiro.
Ali julgou estar sonhando o próprio Ben-Douda nunca esperou que fôssem tantas as graças.
Quando o bôbo se encontrou só com Ali, disse-lhe:
- Estás nomeado adivinho da côrte, e, nessa qualidade, tens que satisfazer, diariamente, os caprichos do sultão.
- Aí é que me doe!- suspirou Ali. – Que hei-de eu fazer?...
- Com audácia tudo se consegue; de resto, estarei ao teu lado para te auxiliar embora com uma condição.
- Qual é?
- É que terei comparticipação em todos os favores que receberes.
- Está combinado…
Desde esse momento, Bem-Douda tornou-se o auxiliar do grande adivinho da côrte, de modo que Ali conseguia, sempre, responder às perguntas do sultão.
Contudo, um dia, ficou bastante embaraçado.
Tendo sido roubado o tesouro do Estado, o sultão exigiu que o grande adivinho descobrisse os ladrões.
- Concedo-te três dias para os encontrares; se no fim do terceiro dia, à hora em que muezzin chama os fieis á oração, não tiveres descoberto os culpados, mando-te cortar a cabeça.
O pobre Ali julgou-se o mais infeliz dos homens; a opulência em que vivia não compensava os terrores contínuos que o assaltavam.
Regressou, muito triste, ao seu palácio e, sentado na fôfa otomana da entrada da porta, fumando no seu chibouk, reflectia sobre a miséria das coisas terrenas, quando ouviu o muezzin, com o seu som agudo, chamar os fiéis á oração da tarde.
- Lá vai um dia! – Murmurou êle com um profundo suspiro.
No dia seguinte, estando igualmente a meditar, ouviu de novo o muezzin:
- La vão dois dias! – Suspirou o mísero.
Finalmente, ao terceiro dia, resignado com a morte próxima, exclamou, de repente, ao ouvir o fatídico muezzin:
- Deus seja louvado! Lá foge o terceiro! Está tudo acabado!
Mas no mesmo instante, um homem que ia passando e que o ouvira, prostrou-se diante dêle, para lhe beijar a mão.
- Senhor! – Disse-lhe o homem banhado em lágrimas – já que tudo sabeis, não nos percas!
Vejo que adivinhasteis que sou eu o terceiro cúmplice… não nos denuncieis e dir-te-ei onde ocultamos o tesouro do sultão!
Como é fácil se supor, Ali prometeu tudo e o ladrão indicou-lhe o sítio onde estava o roubo.
Quando os guardas vieram para o prender, Ali fez-se conduzir à presença do sultão.
- Chegou a hora fatal - disse-lhe êste.
- Ainda não! – Redarguiu Ali – o dia não expirou ainda.
- Mas o muezzin chamou já os fiéis…
- no reino do profeta, a noite legal só começa quando não se pode ver uma pulga nas costas de um negro e eu comprometo-me  a descobrir ô tesouro antes que o sol desapareça do horizonte.
- Devéras?! – Exclamou o sultão, radiante de alegria.
Ali conservou-se pensativo um momento; depois ergueu solenemente a cabeça e exclamou:


- Os ladrões ocultaram o tesouro num velho poço entulhado, que se encontra no jardim abandonado do convento dos derviches!
O sultão radiante, com a boa nova, enviou ao lugar indicado os seus oficiais, os quais lhe trouxeram o precioso tesouro intacto.
- O’ meu filho! – Exclamou num ímpeto de reconhecimento o soberano de Samarhande – pede-me o que quiseres!
- Alteza, o meu desejo mais íntimo é não continuar a ser o vosso adivinho.
Karam-Bou-Lady ainda abanou um pouco as orelhas, mas, fiel à sua palavra atendeu a petição.
Desde então, Ali, cheio de honras e riquezas foi o homem mais feliz de Samarhande.
O lugar de adivinho da côrte do sultão Karam-Bou-Lady continua vago até esta data.

FIM



Fonte: Jornal Infantil Tic Tac Nº2 (15 de Dezembro de 1932) 
Texto/Autor:  Desconhecido
Fotos/Ilustração: Rocha Vieira
𺰘¨¨˜°ºðCarlosCoelho𺰘¨¨˜°ºð

terça-feira, 1 de novembro de 2016

A borboleta branca


A borboleta branca das nossas terras, a qual, invadindo as hortas vicejantes, acusa gulosas preferências pela fôlha de couve, também é conhecida no Japão; mas aqui, onde as couves rareiam, é para os campos de colza que ela dirige especialmente o vôo caprichoso. Em fins de Abril, estes campos de colza esbrazeiam em florescências amarelas, atapetando planícies enormes, a perderem-se de vista; e então as borboletas brancas, por centenas, por milhares, circunvagam pelo espaço, num banho de perfume. A pequenina musumé das aldeias, ao ir de manhã para a escola, pára por momentos à beira das culturas, embevecida nos aspectos do cenário; e, estendendo as mãositas ao enxame murmura esta cantiga popular:
 - Chôchô chôchô, na no há ni tomare; na no há gá iyenara, té ni tomare…
Que quer dizer:

Borboleta, vem poisar
Na tenra colza; ou então,
Se te não agrada a colza,
Vem poisar na minha mão…

No convite ao insecto, transparece – valha a verdade – um inconsciênte  orgulho pelos encantos da epiderme própria. Faltam-se dados bastantes de observação para julgar se a borboleta obedece ao chamamento. Se eu fosse borboleta, não hesitaria na escôlha; - abandonaria a colza, para ir morrer de fome sôbre os dedos setinosos daquela mãosita de masumé. –

Fonte: Almanaque Bertrand (1940)
Texto/Autor: Wenceslau de Morais (Do seu livro «Serões no Japão»).
Foto da net
𺰘¨¨˜°ºðCarlosCoelho𺰘¨¨˜°ºð