quarta-feira, 6 de novembro de 2019

A história do Zé Vicente


Condecorado pelos seus 47 anos na pesca do bacalhau

Ainda mal rompia a luz pelas talisgas da barraca de junco desunido e já o velho fazia ranger as grossas botas de água, no terriço batido no cómodo do lado. No saquitel estavam já o naco duro do pão, a sardinha amarelada pelo ranço, e por cima de todos os hábitos e costumes, a necessidade do ganha-o-dia.
- Eh! Rapaz Eh! Zé Vicente!
O cachopinho saltava lampeiro, enfiava os calçonicos, ia buscar os aprestos da pesca e corria atrás do pai que se sumira, como tragado pelas ondas, na volta do caminho.  
Sempre assim era, desde cachopo, a vida do Zé Vicente, filho e neto de pescadores, representante de muitas gerações de velhos lobos do mar, que dêsses   tinham-os, e dos melhores e mais honrados, o lugar da Fuseta: 1500 almas à deriva das ondas.
Não que só o mar enfeitiçasse os filhos da maresia. Nada. Também a terra, loira do sol e palhetada do oiro das areias que o vento refilão ás vezes carreava, era boa mãe de quem lhe conhecesse os caprichos e lhe quisesse prestar carinhos e afagos. Lá estavam, pois, para trás dos caniços, a nesga de terra, ventre aberto à semente do griséu, ao trigo e à cevada, às belas árvores de figos lampos, às romaneiras, às nespereiras que depois de muito bem criadas, davam bons frutos para a venda em Olhão ou até mesmo em Lisboa. Era certo que não constituía comércio de tamanha valia. Mas que havia de fazer o mulherio, além de limpar monquilho aos safardanas dos cachopos, enquanto os homens se iam de abalada armar o cêrco ou se aventuravam por mais longe, para a pesca do alto?    
Que ficassem, pois, as moças e as mais velhas no amanho da terra, que quanto mais trabucassem maior provento arrecadariam para bem da sua bolsa e das terras da Fuseta. Vinha-lhe o mar beijar os pés enterradinhos na areia que por sua vez afagava a quilha dos caíques em descanso. Pela praia à sombra do costado do barco, ficava-se o mulherio de paleio a consertar as redes, a amanhar o peixe, a salgar o carapau e o sardinhame. Mas tudo isso era só quando os seus homens, maridos e filhos, que Deus trazia sempre no bercinho das ondas suspensos por um fio, pescavam costa à vista. Porque se os homens se iam para longe de abalada, então era entregarem-se, à pele curtida pelo sol e pelo ar do mar, ao amanho da terra criadora. Sêcas de carnes linguareiras, uma malícia danada a aflorar-lhes aos lábios, carreavam o pão para a sardinha, alheias ao airoso do seu corpo, a pontear a terra. Êles, então, mudos de tanto solilóquio com as ondas, vinham de longe esfomeados da fome da sua presença, deitavam-se a arranjar prole, que era sempre maior e proliferava sempre no sagrado dever de assegurar a raça dos homens rudes e fortes da Fuzeta. Às vezes, o mar era traiçoeiro como os homens no amor e apanhava-lhes filhos e maridos, antes que o credo lhes chegasse á bôca. E, então, elas, viúvas, sem braços para a terra ou para o mar, abalavam para Olhão, iam para as fábricas da conserva, para a apanha do figo, faziam o enceiramento por conta de terceiros e por lá se morriam longe do burgo que as vira nascer.
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Zé Vicente acabara nêsse ano os doze e não fôra ainda á escola que, nesse tempo as letras não davam, como hoje, pão à gente. Já desde o ano passado que se afoitara, mar dentro, a ensarilhar-se nas redes. Mas que havia êle de ficar a fazer na terra? Papo para o ar, a olhar para o tecto das canas descamisadas do milho, tecidas como as esteiras, a mal poder com as telhas, havia êle de se ficar em casa a contar as estrelas?
Não, que os remos, as velas, as redes, tudo isso se fizera para êle e para os filhos que viesse a ter. o mar tem esquisitices e não quer no seu convívio peles finas como as rosas criadas no algerós… E era lá, no mar, que grangeavam os homens o melhor do pé de meia com que iam fazendo progredir a terra, hoje até com escola e muitas casas de telhado de duas águas, postas a fôgo quantas barracas havia de junco.
Hoje, sim, todas de pedra e cal, pegando às casas suas nesgas de terra murada e um alpendre florido ou a vergar sob o pêso dos belos «dedos de dama».
Zé Vicente, esse que o diga, se bem que no trabucar não tenha grangeado coisa de jeito. Levou a vida, desde os doze, na campanha, ora na pesca de linha, de mão e «troli», no pesqueiro do alto, ora mais longe, pelos bancos da Terra Nova, à coca do bacalhau. De certo, essa foi sempre empresa mais arriscada. Mas que teme um homem, quando invoca a santa Graça de Deus? Fizera a primeira viagem aos doze anos, mas logo então magicara que também um dia, como os outros, mais homens, partiria para as terras desconhecidas, onde o mar é povoado de montanhas de gêlo. E foi assim que, aos dezassete, homem feito e pele curtida naquele corpo franzino, de nervo rijo e músculo de cabresto, partira para a viagem longa dos seus sonhos a cadeia de promessas em que prendera a Leandra Rolinha, na última vez que foram juntos à Senhora do Livramento.
À volta, tinham-se ficado pelo termo dos campos e, num ai, sem saber como aquilo acontecera, contraíram-se dívidas de gente honrada, dessas mesmas que se pagam na presença de Deus e à beira do altar. De certo, a Leandra não se temia deste adiantamento de carinhos. Ela sabia que o Zé Vicente, como todos de que havia memória e casavam adiantados, pagaria como devia as suas dívidas. Por isso na Fuzeta, não há filhos sem pais nem mães sem maridos. E, mal o demónio do sangue, aí por volta dos dezoito, se lhe alvoroça, se o moço não está em condições de ajuste de contas, não abandona a moça a confiança no eleito de sua amezedade e casa adiantada. Êles marcham depois para o mar a arranjar vida, e elas para o campo, a amealhar patacos para formar novo lar.
É um paragrafo aberto por baixo dos artigos da lei a que poucos se excusam e a que já as irmãs e os irmãos – que eram seis e dois dos quais lhe tinham ficado, com o pai, pescador do alto mar, sepultados muito longe da costa, durante a faina da pesca – não tinham podido negar-se.
Tudo isto porém, se perde já na memória do velho lobo do mar – 66 anos de vida, 47 afeitos às viagens à Terra Nova, mais 17 na pesca fácil do cêrco – à cata da corvina, do carapau e da sardinha, ali à vista da costa – e mais dois à espera de contrato para nova viagem.
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Sessenta e seis anos, mais de 54 embalado pelas ondas, muito terá que contar Zé Vicente, calado e tartamudo, sem a loquacidade do José Rolão, seu compadre, ou o José Vicente Estrêla (Rila) seu genro!
Porém, que sabe êle de aventuras? Sempre metido no porão, no ofício de salgador, o mar quási lhe é estranho à vista. Nunca a Senhora do Livramento se esqueceu do seu destino ou de lhe acender a estrêla que o há-de guiar. Quando José Vicente não tinha mais peixe para salgar – há dois anos que não embarca mas nas mãos tem os sinais, as cicatrizes das feridas profundas que o sal lhe fez na carne!
- Deitava ao mar o bote e ia para longe tentar a sorte da pesca. Porque não era com os ganhos da soldada que havia de governar-se. Se tinha bom mar e o vento menos traiçoeiro, lá ia êle: botava o isco ao peixe que saltava à sua frente e o bacalhau fincava a dentuça. Se êle se morre pelo choco, pelas cagarras e tripas de cagarras e bombaleto, era só jogar-lhe a tiro de espingarda a lambarice…
Perigos? De que se lembra o Zé Vicente, homem e consciência calma, no meio do mar revolto? Quanto aos netos – hoje um deles é pedreiro, fugiu ao mar, que o patife fazia-o côr da cidra, revolvia-lhe o estômago, e um homem quere-se estranho a estas fraquezas. – lhe perguntavam: «Atão, vomecê não tem história a contar?», Zé Vicente, cabelo rapado aonde não é chino, abre a caixa do tabaco e logo se foge às conversas:
- Pois, que quereis que vos conte? A sorte é dura, o sal faz botar sangue nas mãos, no fim, a minha vida é igual às demais. Só uma vez tive lágrimas que não eram do ardor do sal, e que foi quando o ti Jaquim Fêgo teve de ser lançado ao mar com uma pedra no peito e um madeiro atado às pernas… Era um bom companheiro e morreu com uma rouqueira no peito, por causa de ponta de ar…
- E as ilhas do gêlo? Vocemecês não nas temem?
- Lá está o vigia para gritar: «Ilha de gêlo à prôa!» O Capitão manda logo: «Arriba p’ra bombordo!» Ou, então, mais sucessivamente para estibordo!... E logo o barco se safa do caminho que o gêlo toma, a deslizar sobre as águas…
A neta do Zé Vicente, doze anos de cabelos côr de estrigas do trigo, teme-se pelo avô:
- Se vocemecê um dia ia no bote e êle se lhe virava…
-poucas são as vezes que o salgador tem para sair. Por isso vós não tendes herança a esperar do velho Zé Vicente… Os companheiros vêm de lá com os botes todos os dias a abarrotar de pescado. O capitão olha, avalia a ôlho de pêso, e põe-no na conta de quem lho leva. Depois, é passar o peixe ao partidor de cabeças, ao torteiro que o abre, ao escalador e ao garfeiro que o estripa. São assim mesas tão grandes como a porte do Sado… põem-se todos em carreira, o peixe passa de mão em mão e aquilo vai que nem que fosse máquina. Na celha lava-se o peixe e o garfeiro leva-o então para baixo, ao salgador. Assim aberto, é empilhado com sal, até fazer quintais que chegam a ser sete mil…
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E Zé Vicente, que nunca teve um naufrágio ou uma aventura, que em muitos anos de guerra só uma vez foi abordado por submarino, respeitoso das verdes e rubras côres do pavilhão, chupa o cigarro, alheio às falas dos moços. Êle pensa nos seus múltiplos problemas. Antigamente vinha de longada com o caíque a arrebentar de pescado do alto, atracava à Ribeira e era fácil negócio: por cada 30 cabazes de pescado, 3 pescados. Agora é tudo fisco, mais os grémios, mais as juntas… Depois vinha Abril ou vinha Maio, as empresas de Aveiro, da Nazaré e Afurada, do Pôrto e de Lisboa mandavam pelos homens da companha e contratavam por viagem. Cada lugre levava o muito de 36. Hoje aumentaram: 60 em cada arrastão, cada um com seu bote.
Também antigamente verdade que se dissesse, rendia menos a época. Por isso, armadores do Algarve se tinham ido abaixo: o bacalhau era uma coisa de nada, comida de pobres que os pobres mal pagavam. E Hoje? Aí estava: comida de ricos, comida que mal se comia, com os pescadores trazidos nas palminhas. Hoje, sim, que tinham baixado a juba. Porque êle bem se lembrava: ainda não tinham passado oito anos sôbre a sua prisão. Viera com todos os seus companheiros da Fuzeta, presos debaixo de forma, só porque êle e os mais se tinham recusado a ser contratados pela coisa de nada que o Grémio propusera. Assim também, não admirava que as verdades lhes entrassem pelos olhos dentro…
Zé Vicente deu um suspiro, mas atrás de umas ideias vêm outras, como bacalhaus ao isco de cagarras…
Que era isso de ganho, mesmo há oito anos, de um conto e pouco?
Hoje, botando contas…
E Zé Vicente botava contas: antigamente, aqui há trinta e cinco anos, as soldadas eram de 130 escudos e os dólares estavam a nove tostões. E era a dólares que o capitão pagava os mantimentos – carne às quintas e domingos, um doce de vez em quando – comprados em Boston e Nova York. (E aqui o Zé Vicente perguntava-se, até, porque motivo nunca descera na América e só uma vez pusera pé em rochas ermas da Terra Nova…)
Hoje, a soldada é de 2.870$00, mas o dólar está a trinta e cinco escudos… Era pouco, pois claro, mas uma coisa valia mais que a soldada e essa era a percentagem. Até cem quintais de peixe apresentado, recebiam mais vinte escudos por cada; de cem para cima vinte e cinco escudos; de 150 para cima, trinta e cinco e, de duzentos a mais, cinquenta escudos por quintal. Claro que aos duzentos quintais poucos chegavam e, com eles, ao prémio do Grémio – 300 escudos para quem apanhasse a meia tonelada. Pela média porém, bem podia dizer-se que um só homem, ao fim de uma viagem de seis meses, para além da soldada, já vinha a amealhar seus cinco contos e picos. Por isso muitos deles tinham feito casa de pedra e cal, botado redes novas, comprado mais uma geira de terra para cultivo.
E, depois, bem vistas as coisas, aquêle a quem Deus bafejara de sorte e todo o dia podia andar no bote à pesca, nunca na vida tinha tido tão poucas razões de queixa: festas de bênção no Tejo, os lugares embandeirados, ministros a acompanhá-los, eles todos num virote e nos discursos e agora, por fim, aquela grande roseta de oiro com esmaltes, suspensa de uma fita de seda, posta ao pescoço pelo Primeiro de Portugal.
Zé Vicente ergue-se impaciente. Tarda-lhe o aviso de Lisboa, a notícia de que está pronto o arrastão que o levará por todo o mês na senda dos companheiros. Irá ao mesmo tempo que o «Gilanes», sempre atento às chamadas e pronto para levar e trazer recados à família pelos fios e através do espaço…
Depois, Zé Vicente vai à arca buscar a caixa forrada de carmezim. Abre-a com jeito e fica-se a olhar as estrêlas da Ordem do Mérito Industrial com que foram premiados os seus 47 anos de viagens. Cada raio de oiro parece que é como se fosse uma das suas cicatrizes. Mas, bem confessado, Zé Vicente pode dizer como gostou de se ver falado e retratado nos jornais. Então, fecha o estojo e suspira, fazendo-se modesto:
- Isto não vale de nada. Eu vos digo, antes me dessem aumento de pensão, 30 mil reis por mês que valem hoje? E 66 anos de mar pesam nos ombros. O máximo 57… O Govêrno devia dar-nos reforma...
O Fangueiro, o Lelo, o Páscoa, o Paleiro, o Sabino, o Panela, tantos da sua idade que já partiram e são evocados nesse momento de espera!
O Filinto tinha dado a sua última palavra remordida:
- Uma destas! Só as calças e a blusa!
Zé Vicente deitara água na fervura, enquanto o Sabino, do fundo das algibeiras, retirava três pães que poupara no almoço como senhor Subsecretário, para dar à companheira que viera da Fuseta à despedida:
- Home, atão, que queres, as botas são para os cachopos da escola…
Zé Vicente sorri:
- Lá se vão 500 escudos que é quanto valem as botas de cabedal…
Depois, poisa os olhos no Oceano… Para ali ficará agarrado à medalha, a ruminar saudades, olhos fitos na padroeira que uma vez mais há-de ir solicitar para sua protectora.
E, dos olhos. Pelas rugas profundas, corre-lhe uma lágrima silenciosa e quente, de dor que não se exprime…

Fonte: Revista Ver e Crer nº2  (1945)
Texto/Autor: Manuela de Azevedo
Foto da Revista
𺰘¨¨˜°ºðCarlosCoelho𺰘¨¨˜°ºð

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

As Naus das Descobertas


 Tinha sido um verdadeiro sufoco, ela na rua e de repente a pensar: “esqueci-me das chaves e do telemóvel em casa”.
A quem pedir ajuda, e como? Mesmo com cabines telefónicas nos passeios e moedas nos bolsos, desde que se inventaram os telemóveis que ela nunca mais soube nenhum número de cor, está tudo na memória, ela a viver pela memória de uma máquina, ao que isto chegou.
Mas foi sufoco breve, felizmente não estava longe de casa quando deu pela falta, e pôde voltar atrás e entrar no café, que desde sempre guarda uma cópia das suas chaves para uma qualquer emergência. Como esta.
Ainda bebeu uma tranquila bica antes de voltar a casa para buscar o que esquecera, meditando, como sempre em ocasiões semelhantes, na dependência em que todos vivemos de máquinas e tralhas afins.
Vem-lhe à memória o tempo longínquo em que o primeiro telefone móvel entrara lá em casa. Uma maravilha da técnica. Tirava-se do descanso e podia-se levar pela casa toda, e falar estiraçado na cama, ou na sala, ou na cozinha, enquanto se mexia a sopa.
Tinha sido o filho quem mais vibrara com o objecto. Agora podia enfiar-se no quarto, sem dar cavaco a ninguém, e passar horas com as suas diversas namoradas.
Preocupava-a aquele filho, sem nunca pegar num livro, naquela casa onde eles estavam por todo o lado e onde ninguém podia passar sem eles. Ninguém, menos ele, claro, que pelos vistos passava mesmo muito bem, porque a verdade é que tinha boas notas e não chumbava. Mas ler não era o seu passatempo favorito. Por isso lembrara-se do ar de espanto que fez no dia em que ele lhe perguntou:
- Mãe, onde estão ‘As Naus’?
Nem percebera
- Onde está o quê?
- ‘As Naus’, mãe. Aquele livro do Lobo Antunes.
Não quis mostrar demasiado o seu espanto, o rapaz ainda era capaz de se arrepender, e tirou-o da prateleira. O filho pegou no livro, enfiou-se pelo quarto, fechou a porta e lá ficou.
Nos dias seguintes ‘As Naus’ lá continuavam na mesa-de-cabeceira. Um dia achou por bem voltar a pô-lo na prateleira.
À noite o filho, meio zangado:
- Mãe, qu’é das ‘Naus’?
Pelos vistos a leitura do romance entusiasmava-o.
Um dia arriscou:
- Estás a gostar das ‘Naus’?
Foi a vez de ele a olhar espantado.
- Das ‘Naus’?
- Sim, do romance do Lobo Antunes.
- Ah!!
Foi um enorme “Ah”, que se devia ter ouvido pela casa toda.
Depois foi buscar o livro e abri-o na primeira página, onde se viam uns números escritos a lápis.
- Tás a ver , mãe… É que há dias, quando tu andavas a fazer a arrumação dos livros, a Teresa ligou e eu precisava de tomar nota do número do telefone dela. E isto era a única coisa que eu tinha à mão. Como nunca sei o telefone dela, preciso sempre de ver aqui.
Ainda pensou em dar-lhe uma agenda – mas desistiu. Pegar num livro era bem melhor. Até podia ser que ele se entusiasmasse e  passasse da primeira página.
Como de resto veio a acontecer, não por causa de ‘As Naus’ mas por causa de uma namorada que lhe disse:
- Ou tu lês o que eu leio, ou nada feito.
Casaram, são muito felizes, têm 5 filhos.
(‘As Naus’ continuam com o número de telefone escrito a lápis, já um bocado sumido, que os anos não perdoam.)

Fonte. Revista Activa
Texto/Autor: Alice Vieira
Foto da Net
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quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Renascimento


Venha, após tanta lágrima bebida
E tanto fel provado, a dôce e branda
Alegria, em que a murcha flor se expanda
Do sorriso, e eu de novo surja à vida!

De novo em festas, gárrula e florida,
A alma se rasgue inteira – ampla varanda
Escancarada de uma e outra banda
Ao fresco e à luz, de alegre sol batida…

Parta a loisa ao sepulcro que a devora,
E, livre assim dessa mortal tristeza,
Desfeita em hinos, vá pela floresta…

Vá pelo mar… vá pelo azul  afóra…
Derramando por tôda a natureza
O pouco de ilusões que ainda me resta.

Fonte: Almanaque Bertrand (1940)
Texto/Autor: Raimundo Corrêa
Foto da Net
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quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Ar livre


Ar livre, que não respiro!
Ou são pela asfixia?
Miséria de cobardia
Que não arromba a janela
Da sala onde a fantasia
Estiola e fica amarela!

Ar livre, digo-vos eu!
Ou estamos nalgum museu
De manequins de cartão?
Abaixo! E ninguém se importe!
Antes o caos que a morte…
De par em par, pois então?!

Ar livre! Correntes de ar
Por toda a casa empestada!
(Vendavais na terra inteira,
A própria dor arejada,
- E nós nesta borralheira
De estufa calafetada!)

Ar livre! Que ninguém canta
Com a corda na garganta,
Tolhido da inspiração!
Fora do ventre da mãe,
Desligado do cordão!

Ar livre, sem restrições!
Ou há pulmões,
Ou não há!
Fechem as outras riquezas,
Mas tenham fartas as mesas
Do ar que a vida nos dá!

Fonte: Almanaque Diário de Notícias (1954)
Texto/Autor: Miguel Torga (Do Livro «Cântico do Homem)
Foto da Net
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terça-feira, 23 de julho de 2019

Ritornelo


Claro dia. Um raio de sol baixava em frecha sobre a torre. A frontaria da Ermida e as naves fulguravam douradas. Soava docemente no ar sereno o estribilho de uma cantiga, muito vago, mas quem conhecia o tom compunha a estrofe. Era a moda dos «Olhos negros». Começava assim:

«Deus do céu, Senhor meu Deus!
Que olhos negros tão fatais…

E retomava:

A própria Virgem Maria
Não tinha uns olhos iguais…»

O Velhinho, voltando a cabeça, já encontrou o olhar meigo da velhinha. Sorriam. E a cantiga sempre ao longe, no frescor matinal dos campos.
- Quem será? – Indagou a velhinha, agitando a cabeça dentro do bioco. – Quem cantará?
O velhinho encolheu os ombros, sorrindo, acenou balançando a mão trémula na direcção do campo; e suspirou:
- Vai para oitenta anos!
- Oitenta anos! – Disse a velhinha sem tristeza.
- Lembras-te? Ainda não eramos noivos…
- Ainda não eramos.
- Faláramos somente, uma ou duas palavras no decorrer do serão. Vestias uma saia de ramagens e trazias uma rosa vermelha no corpete.
Encolheram-se, baixaram as cabeças.
Por fim o velho disse:
- Fizeram-me cantar… improvisei.
Olharam-se e as pupilas quase extintas tiveram um relâmpago de malícia.
- Fingiste não perceber – disse o velhinho, raspando a terra com o cajado.
- Bem que percebi.
Calaram-se e a cantiga, mais próxima:

A própria Virgem Maria
Não tinha uns olhos iguais.

- E não tinha – disse o velhinho.
A velhinha sacudida pelo riso, foi-se levantando tremulamente.
- Onde vais?
- Quero ver quem canta. Anda ali pelas terras de trás. A voz é de moço.
- Quero ver também.
O velhinho ergueu-se, levando a mão em pala à altura dos olhos.
- É um rapazola. Eu não disse?
- Vai carreando. É Carreiro. Quem será?
O velhinho por sua vez encolheu os ombros, sempre a olhar, mudo de enternecimento!

«A própria Virgem Maria…

Disse no estribo o cantador. E o velhinho, muito baixo, passando a mão pelos ombros da velhinha, atraiu-a docemente e terminou a quadra:

«Não tinha uns olhos iguais».

Sentaram-se calados. O tom da cantiga foi morrendo ao longe e o silêncio caiu, apenas interrompido pelos chilros da passarada.
Subitamente a porta da igreja abriu-se de par em par e o vigário, assomando na soleira, não conteve um grito de indagnação:
- Eh! Corja!
Os velhinhos estremeceram e apartaram-se.
- Então, que é isto? Aos abraços aqui diante de Deus!
Vendo, porém, a figura do velhinho e o rosto encarquilhado da velhinha, desatou a rir, andando com o olhar de um para o outro.
- Pois ainda!...Ora sim senhores!
Olhem que já lá vão velhíssimos anos!
Até me parece que vocês casaram por aí, ao ar livre, à sombra das árvores. As pedras da Ermida dormiam ainda na rocha de onde vieram. Não se me dava jurar que foi o próprio Deus quem vos casou, porque não havia padres nesse tempo… E desatou a rir…
Eh, eh, eh! – Fez o velhinho… - olhe que somos da mesma idade, reverendo. Bem bons anos, bem bons anos!... O sr. Vigário era um rapaz e foi o primeiro casamento que fez.
E o vigário, dando a mão a beijar, sempre a rir:
- Pode ser – disse – mas, já me não lembra… - E, batendo de leve no ombro do velho:
- Mas então que foi isso hoje? …
A manhã, o bom sol ou as travessuras dos pássaros, porque andam delirantes, os patifes?… Que foi isso? E para a velhinha: Hein, velhota, que foi?
- Foi a cantiga do bom tempo, senhor vigário – disse o velhinho, estalando os dedos. – Uma cantiga do bom tempo.
- Uma cantiga que ele fez aos meus olhos, quando noivo… - disse a velhinha, baixando a cabeça e torcendo as franjas do chaile; e cantou baixinho:

«Deus do céu, Senhor meu Deus…

E o velhinho risonho:

«Que olhos negros tao fatais…

- Ora! Não conheço eu outra coisa!
- Exclamou o vigário. – Por sinal que acaba com um formidável sacrilégio.
E os três, juntando as cabecinhas brancas, cantaram, como se balbuciassem um segredo para que os santos, lá dentro, não ouvissem:
«A própria Virgem Maria
Não tinha uns olhos iguais…»

Fonte: Almanaque Diário de Notícias (1954)
Texto/Autor: Coelho Neto (Do livro «Baladilhas»)
Foto da net
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sábado, 15 de junho de 2019

Soneto


Abri meus olhos ao raiar da aurora
e parti. Veio o sol e então segui-a…
a sombra, que eu julgava guiadora,
a minha própria sombra fugidia.

E foi subindo o sol; ao meio dia
escondeu-se-me aos pés a sombra; agora,
se volto a olhar onde passei outrora,
vejo a seguir-me a sombra que eu seguia.

A gente é o sol dum dia; sobe, avança,
passa o zenite e vai, na imensidade,
apaga-se no mar, onde se lança…

e a vida é a própria sombra; meia idade
somos nós que a seguimos e é – esperança;
depois segue-nos ela e é – saúdade.

Fonte: Almanaque Bertrand, 1940
Texto/Autor: Fernando Caldeira
Foto da net
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quinta-feira, 30 de maio de 2019

A escolha



Adélia tem 32 anos. É magra, tem cabelo escuro, liso (o que é muito importante porque eu passo a vida no cabeleireiro…) veste-se bem e, numa festa, Adélia nunca deixa de ser observada. É bem informada, curiosa e sai algumas vezes à noite. Agora menos.
Adélia junto dos amigos faz algumas caras tortas. E eles junto dela, também. Até mais do que ela. Porque os amigos acham que a Adélia tem um feitio difícil. Mostra-se impaciente, enfurece-se com pouco. Contesta tudo o que conquista. Há um amigo que diz que a Adélia parece precisar de um orgasmo. É como se estivesse permanentemente naquela tensão – à beirinha de o conseguir, mas depois porque talvez conteste o próprio orgasmo) não o atinge e, claro, fica furibunda. Ela é assim sempre. Menos quando bebe. À noite quando sai e se enfrasca, Adélia parece outra mulher: dança e abraça os amigos e namorisca os desconhecidos. Nestas poucas horas de folia, é adorável. O problema, mesmo, é levar com ela o resto do tempo…
Aconteceu há uns tempos eu e a Adélia estarmos interessadas no mesmo rapaz. Mas não sabíamos.
À partida ela tinha mais hipóteses: a beleza natural dela, os cabelos soltos e a magreza que se leva debaixo do braço eram vantagens. Perante este quadro, e quando me apercebi de que ele olhava mais para ela, recuei. Caramba pensando bem, aquele rapaz só me iria trazer problemas. Convidei ambos para o meu aniversário e durante a festa conversaram muito. Mas eu, que ia espreitando os dois, via muitas vezes na cara dela a tal tensão. Não estaria ela a conseguir atingi-lo?
Durante uns dias nada soube dos dois. Mas quis o destino (é assim que se diz, não é?) que eu e ele nos cruzássemos de novo. E quando nos cruzámos, conseguimos alcança-lo magnanimamente. Sim o orgasmo. Embora a minha tensão tenha vindo depois quando descobri que me estava a apaixonar… (mas há riscos que vale a pena correr. Estar apaixonado é o melhor deles).
Eu e o rapaz passámos a ter um relacionamento intenso, mas não assumido. Adélia era por isso uma sombra. Um orgasmo que tinha ficado por conseguir. Iria ela insistir? Ou seria ele? São estas dúvidas que consomem uma mulher. Não é o conflito israelo-palestiniano… Eu e o rapaz fomos quase felizes durante algum tempo. O “quase” aqui quer dizer muitas chatices também. Mas isso era matéria para outra crónica. E eu quero poupar-vos. O que interessa hoje é perceberem que a beleza da Adélia não era tudo. Não foi. Não é, Adélia. A beleza ao contrário do que se dizia a música dos Rockivarius, não é fundamental. (Pobre Cristina, que levou com este refrão tantas vezes nos anos 80…).
Um dia ele disse-me que tinha ido jantar com ela. E eu estremeci. “Não se passou nada”, garantiu ele. “Faltava-lhe chama.” Depois do susto, estremeci mas de prazer, ficando com aquela serenidade que dura pouco, mas que é tão boa. A serenidade dos corpos cansados. Coisa que talvez a Adélia não conhecesse.
O ponto desta crónica é perceberem que uma mulher interessante é mais bonita que uma mulher cuja beleza não suscita dúvidas. Eu sei que a minha beleza levanta muitas questões. E prefiro assim. Prefiro que me conheçam e se deixem conquistar sem perceber como nem porquê. Entre a Adélia e a Cidália, porquê a Cidália? Ora bolas, têm de me conhecer!
As mulheres que vos perturbam são as que vos vão dar mais prazer. Isto é como a história dos homens preferirem as loiras mas ficarem com as morenas… Eu e a Adélia somos ambas morenas, mas a Adélia não perturba. Enche só a vista com a sua beleza flat.
Eu adoro perturbar rapazes bonitos com as dúvidas sobre o que vêem… Não é fascinante começar a gostar cada vez mais sem saber muito bem porquê?
Eu cá sei…
Oh God, make me good, but not yet!

Fonte: Revista Notícias Sábado
Texto/Autor: Cidália (cidaliadias@yahoo.com)
Foto da net

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segunda-feira, 8 de abril de 2019

Dali e Gala


Onde está Gala? Dalí acordou, sobressaltado, a meio de um sonho. Olhou para a sua cama enorme; ninguém. Levantou-se, deu uma vista de olhos rápida pelo quarto. Procurou depois pelas dezenas de compartimentos da enorme mansão. Onde está Gala? A sua amada Gala, a musa que inspirava os seus quadros, e mais do que isso, o seu sono. Onde está Gala?
Dalí abriu a janela do quarto. Meteu a cabeça de fora, olhou para a esquerda e depois para a direita. E sim, do lado de fora, colado á parede, um bilhete com uma mensagem.
Era um hábito de Gala: fugia e deixava um bilhete com pistas, ou algo mais explícito. Dalí leu o bilhete. Nele, apenas uma frase:

Encontramo-nos no campo dos pirilampos
                                                                  Gala

Dalí sorriu. Não era a primeira vez que Gala marcava encontro de noite no enorme, enorme Campo dos Pirilampos.
Era um jardim com uma área mui extensa, a perder de vista, localizada a quilómetros de distância; jardim em que inúmeros pirilampos faziam as suas trocas de luzes. Machos e fêmeas em grande actividade, que lembrava por vezes os faróis anunciando terra firme. Os machos pirilampos, esses, emitiam luz a um ritmo determinado, o objectivo era seduzir as fêmeas para acasalarem. Quanto mais intensa a luz mais as , fêmeas ficavam seduzidas. Luz, escuro, luz, luz, escuro. Mas havia um perigo para os pirilampos macho: uma outra espécie animal andava por ali, pelo jardim, e comia os pirilampos que detectava precisamente pela luz forte. E assim estava instalado o drama que Gala e Dalí adoravam. Para seduzir e fecundar a Fêmea, o pirilampo macho teria de produzir uma luz muito forte, a ritmos regulares; mas quanto mais produzia essa luz, mais perigo corria. Para Gala era a síntese perfeita e era isso que exigia a Dalí: que mesmo correndo perigo de morte, ele produzisse uma luz que a encantasse.
Dalí leu o bilhete e cumpriu o desejo de Gala.
Quando a noite chega, eis Dalí em pleno Campo dos Pirilampos, deitado, escondido, e com uma pequeníssima lanterna, lanterna de menos de um centímetro de diâmetro.
Conhecia o jogo que Gala exigia jogar. Pela luz se prova o amor – dizia Gala -, se uma fêmea não conhece a luz que o seu macho emite, algo está errado. E por isso de tempos a tempos, expressando um ritual de renovação do amor entre Gala e Dalí, os dois se sujeitavam àquele jogo perigoso.
Nessa noite escuríssima, sem o mínimo vestígio da luz da lua ou de luz de fonte humana, ali estava, pois, há muitos minutos, Dalí, deitado, tentando não respirar, com a cabeça virada para cima, e com as mãos em cima do peito, uma delas segurando a minúscula lanterna. Esperava pela chegada de Gala ao Campo dos Pirilampos, escondido – e apenas pela luz emitida tentaria que Gala percebesse onde ele estava.
O perigo residia nisso. Gala vinha com uma espingarda de caçador preparada para disparar sobre os pontos de onde partia a luz. Ela era uma caçadora de luz, como lhe chamava Dalí.
Gala ficava imóvel e calada durante instantes e assistia a alguns diálogos entre pirilampos – diálogos feitos de respostas luminosas ou dessa outra forma de silêncio que era a escuridão – e, quando os localizava, disparava. Nada era falso naquele ritual de renovação amorosa do casal, as balas eram verdadeiras.
Nunca matariam um pirilampo, mas se acertassem em Dalí tudo acabaria. Era um jogo perigoso, mas, apesar de tudo, com muitas hipóteses de dar certo: a luz que Dalí imitiria com a sua pequena lanterna seria reconhecível por Gala. Nisso acreditavam os dois.
Na primeira vez em que haviam celebrado este ritual, Dalí definira as regras. Dirigindo-se a Gala, e com a sua pronúncia forte, dissera:
-Matarás todos os machos e, por fim, ficará apenas um macho emitindo luz: eu.
Era este o programa do ritual: que, devido ao som das balas, todas as luzes de pirilampo fossem desaparecendo (sim, dizia Dalí: os pirilampos também têm medo, quem não tem medo?) até que ficasse uma única luz: a produzida por Dalí. Depois, livres de qualquer competição, macho e fêmea teriam como prémio uma rápida mas importante cópula nocturna.
Porém, Dalí naquela noite quis ir mais longe.
O amor dos dois havia sido posto em causa várias vezes nos últimos tempos. Aquele era por isso, para Dalí, um jogo decisivo. Tratava-se de correr um risco a sério, como um pirilampo macho que tivesse tanto desejo de acasalar que, mesmo pressentindo a presença de animais com vontade de fazer de si um banquete, mesmo assim então emitiria luz forte e repetidas vozes para conseguir seduzir a sua fêmea.
O que fez então Dalí? Não ligou a lanterna e mantendo-se na mesma posição, deitado de cabeça para cima e com os braços cruzados num gesto religioso, abriu muito os olhos, abriu imenso os olhos pois estava certo de que o branco do seu globo ocular emitiria, através da noite, uma luz tal que Gala, de imediato, o localizaria.
Não havia então, no campo nocturno, mais nenhuma fonte de luz que não as luzes intermitentes dos pirilampos e a luz, acreditava Dalí, que a parte branca dos seus olhos emitia.
Duas, três, quatro, dez balas no total, foram disparadas por Gala naquela noite. Os pirilampos por certo nada percebiam daquele jogo perigoso que se desenrolava entre um macho e uma fêmea humanos, no entanto as balas eram eficazes e os pirilampos machos deixavam de emitir luz, afastando-se ou calando-se (por assim dizer).
Dalí por seu turno, embora com os seus longos bigodes erguidos na ponta que, naquela posição, lhe provocavam uma leve comichão na face, mantinha concentração absoluta – como se estivesse morto, mas respirasse ainda.
Mantinha-se em silêncio, com os olhos muito abertos à espera que a sua fêmea o localizasse pela luz constante que produzia.
O grande perigo era se um pirilampo tivesse a má ideia de emitir luz perto do sítio onde ele estava. Se tal acontecesse, Gala poderia disparar nessa direcção.
Mas Dalí confiava no amor entre os dois. E estava certo de que uma fêmea, mesmo com aquelas más condições de visibilidade, não dispararia sobre o seu macho.
Dalí diga-se, não acreditava apenas que o amor entre os dois tinha bases bem visíveis – como a luz que o branco dos seus olhos emitia na noite -, acreditava estar ainda ligado a Gala através dos elementos psíquicos, bem mais misteriosos. Dalí estava certo de que, devido á ligação psíquica entre as duas cabeças do casal, Gala o encontraria em qualquer ponto do mundo, sem qualquer indicação racional ou ajuda científica: - Gala nunca poderá fugir de Dalí – dizia ele, por vezes, arredondando cada palavra. – E Dalí nunca poderá fugir de Gala.
E nessas alturas repetia, alto, com grandiloquência, utilizando estranhas associações de palavras:
- Pela cabeça psíquica de Dalí, gala será localizada em qualquer parte do mundo. Pela cabeça psíquica de Gala, Dalí será também encontrado em qualquer parte do mundo.
Acreditava pois na ligação indestrutível das suas cabeças Psíquicas e, por isso, naquela noite, deitado num enorme campo às escuras, nesse largo Campo dos Pirilampos, Dalí sabia que, se Gala disparasse na sua direcção, o faria de forma intencional – e isso sim, provaria que o amor de Gala por ele havia terminado. Se Gala me matar… - pensava Dalí, repetindo, como tanto gostava, o óbvio e ao repeti-lo fazendo do óbvio uma declaração extraordinária -… Se Gala me matar é porque já não me ama.
E Dalí, naquele preciso instante, deitado e totalmente imóvel, sentindo já a humidade das ervas passar para a roupa e para todo seu corpo, pensava, como que rezando:
- Dalí sabe sempre onde está Gala. Gala sabe sempre onde está Dalí.
Mas, de facto, se há poucas horas fora Dalí a perguntar – Onde está Gala? -, Agora, em plena noite, no Campo dos Pirilampos, campo deserto e afastado de todo o vestígio de civilização, é Gala que, segurando uma arma e disparando para eliminar os outros machos, pergunta: Onde está Dalí?
E, por uns segundos, naquela noite, tanto Dalí como Gala duvidam do seu amor. Dalí, sempre imóvel, em silêncio, deitado sobre a erva, pensa: se nem a minha cabeça psíquica nem a cor branca dos meus olhos é suficiente para Gala me localizar, então algo entre nós os dois está desfeito. E Gala, por seu turno, continuando a avançar pelo campo com a sua espingarda, pensa: se não localizo a luz de Dalí no Campo dos Pirilampos, então é a altura de partir.
Mas, subitamente, uma nova luz se acende em pleno campo. Gala vê essa luz perfeitamente, embora ela surja a mais de cem metros do sítio onde está. Olha para o chão e nada consegue distinguir. Por instantes Gala prepara a espingarda para disparar, mas de imediato a baixa.
- É Dalí! -,Gala tem certeza.
Ela não viu uma única parte do corpo do seu amado, mas naquela luz que acendia e apagava Gala percebeu um ritmo, um padrão que revelava Dalí.
É o ritmo da luz de Dalí, murmurou Gala.
E eis então chegados ao momento decisivo. Gala aproxima-se daquela fonte de luz. A noite de uma escuridão absoluta nada deixa ver e por isso só a poucos metros Gala vê o que antes pressentia: Dalí deitado, sobre as ervas, com a cabeça virada para cima, os braços cruzados sobre o tronco e uma das mãos a segurar numa lanterna desligada.
Gala baixou a arma. Eliminara todos os machos, restava o seu – pronto para o prémio prometido.
Dalí não se mexeu, baixou e levantou as pálpebras mais duas vezes. Fora dessa forma que ele há pouco produzira a luz intermitente decisiva: abrindo e fechando os olhos.
Quando Gala se aproximou, Dalí disse, maravilhado consigo mesmo:
- Que luz, que luz fantástica provoca o branco dos meus olhos!
- Sim, que luz perfeita, querido Dalí – murmurou ainda Gala, antes de deixar o seu corpo pousar sobre o mais estranho macho que já conhecera no Campo dos Pirilampos.

Fonte: Revista Visão
Texto/Autor: Gonçalo M. Tavares
Foto: Yevegenia Nayberg /re-searcher.com
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sexta-feira, 29 de março de 2019

O pequeno sítio e a vaca


Um filósofo passeava por uma floresta com um discípulo, e conversavam sobre a importância dos encontros inesperados. Segundo o mestre tudo o que está diante de nós dá-nos uma hipótese de aprender ou de ensinar. Neste momento cruzavam-se com a porteira de um sítio que, embora muito bem localizado, tinha uma aparência miserável.
- Veja este lugar – comentou o discípulo.
- O senhor tem razão: acabo de aprender que muita gente está no paraíso, mas não se dá conta, e continua a viver em condições miseráveis.
- Eu disse aprender e ensinar – retrucou o mestre. - Constatar o que acontece não basta: é preciso verificar as causas, pois só entendemos o mundo quando entendemos as causas.
Bateram à porta, e foram recebidos pelos moradores: um casal e três filhos, com a roupa rasgada e suja.
- O senhor está no meio da floresta, e não há qualquer comércio nas redondezas – disse o mestre para o pai de família.
- Como sobrevivem aqui?
E o senhor, calmamente, respondeu:
- Meu amigo, nós temos uma vaquinha qua nos dá vários litros de leite todos os dias. Uma parte desse produto nós vendemos ou trocamos na cidade vizinha por outros géneros de alimentos; com a outra parte nós produzimos queijo, coalhada e manteiga para o nosso consumo.
E assim vamos sobrevivendo.
O filósofo agradeceu a informação, contemplou o lugar por uns momentos, e foi-se embora.
No meio do caminho disse ao discípulo:
- Pegue na vaquinha, leve-a até ao precipício ali em frente, e atire-a lá para baixo.
- Mas ela é a única forma de sustento daquela família!
O filósofo permaneceu mudo. Sem ter outra alternativa, o rapaz fez o que lhe era pedido, e a vaca morreu na queda.
A cena ficou marcada na sua memória.
Depois de muitos anos, quando já era um empresário bem-sucedido, resolveu voltar ao mesmo lugar, contar tudo à família, pedir perdão, e ajudá-los financeiramente.
Qual foi a sua surpresa ao ver o local transformado num belo sítio, com árvores floridas, carro na garagem, e algumas crianças a brincarem no jardim. Ficou desesperado, imaginando que a família humilde tivera de vender o sítio para sobreviver. Apertou o passo, e foi recebido por um caseiro muito simpático.
- Para onde foi a família que vivia aqui há dez anos? – Perguntou.
- Continuam donos do sítio – foi a resposta.
Espantado, ele entrou a correr na casa, e o senhor reconheceu-o. Perguntou como estava o filósofo, mas o rapaz estava ansioso demais para saber como conseguira melhorar o sítio, e ficar tão bem na vida:
- Bem, nós tínhamos uma vaca, mas ela caiu no precipício e morreu – disse o senhor.
- Então para sustentar a minha família, tive de plantar ervas e legumes. As plantas demoravam a crescer, e comecei a cortar lenha para venda. Ao fazer isso tive de replantar árvores, e necessitei de comprar mudas. Ao comprá-las, lembrei-me da roupa dos meus filhos, e pensei que podia talvez cultivar algodão. Passei um ano difícil, mas quando a colheita chegou, eu já estava a exportar legumes, algodão, ervas aromáticas. Nunca me tinha dado conta de todo o meu potencial aqui: ainda bem que aquela vaquinha morreu!

Fonte: Revista Caras
Texto /Autor: Paulo Coelho

Foto da Net
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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Fialelei


Chamou-nos a atenção, logo que chegamos à pequena cidade de Apia, na Samoa Britânica, aquela rapariga polinesiana, de uns vinte e três anos, descalça e com um vestido estampado com desenhos floridos. Vendo-a por tôda a parte, percebemos, em breve, que nos seguia os passos. O mercador, que interrogámos sôbre quem seria ela, respondeu simplesmente: «Fa’a-Samoa – costumes de Samoa – quer apenas travar relações.»
Levara-nos ali o projecto de um filme sobre a vida nativa nos mares do Sul. Éramos sete ao todo – minha mulher, meus três filhos pequenos com a governante irlandesa, Annie, meu irmão e eu. Escolhemos Savii, no extremo oeste das ilhas de Samoa, para fornecer quadros e cenas ao filme documentário, e o vilarejo de Safune, como quartel-general. Detivemo-nos em Apia afim de regularizar certos papéis, e adquirir numa alfaiataria as roupas leves necessárias.
Certa feita, como os meus filhos brincassem em frente do bangalô onde nos hospedáramos, a rapariga samoana ficou a contemplá-los de longe, até que, num dado momento, a bola com que jogavam rolou na estrada. Surgiu assim o pretexto, por que ela andava ansiosa. Apanhou-a do chão e, dirigindo-se para as crianças, murmurou timidamente: «Meu nome é Fialelei.»
Eles sorriram, ela respondeu com outro sorriso, e tornaram-se desde então grandes amigos. Os meninos trouxeram-na à varanda onde nos achávamos sentados. «Por favor», desculpou-se a rapariga - «Fa’moli-moli – Que os seus corações se aquietem. Estou apenas brincando com os pequenos». Tinha uma voz deliciosamente suave -. «Fez bem em vir» -, respondemos.
Daquele dia em diante, vimo-la sempre a fazer companhia aos meninos. Cuidava além disso, de Annie, a quem o calor opressivo fizera mal. Dormia em nossa rêde, na varanda. Quando Annie melhorou, disse que Fielelei fôra um presente dos céus. Descobrimos que o nome Fialelei significava: «aquela que deseja bem a todos». Ia-lhe o nome à perfeição.
Quando embarcámos para Savii, despedimo-nos de Fialelei. A rapariga beijou as crianças a seu modo, isto é, esfregando-lhes o rosto com o nariz. Quis pagar-lhes os serviços que prestara. Não aceitou; e disse, cruzando os braços atrás das costas:- Só o facto de os ter conhecido basta para regalar-me de prazer.
Houve já quem descrevesse Safune como um verdadeiro paraíso. Não fosse a praga de môscas, efectivamente o seria. Embora protegêssemos o bengalô com telas, algumas, ainda assim, entravam. Não há conselhos ou advertências com que os brancos tenham podido persuadir os nativos da ação perigosa das môscas. Não conseguimos convencer jamais, sequer os nossos próprios empregados, de que deveriam exterminá-las. Tabú, diziam, sacudindo a cabeça. Nestas condições irrompendo de súbito na aldeia um surto epidémico de desinteria amebiana, as môscas espalharam-se por tôda a parte e casa não houve, na localidade, em que não encontrasse pelo menos uma vítima do mal. Pedimos a Deus que protegesse a nossa.
Certa noite, um barco atracou em Safune. Na esperança de que trouxesse de Apia algum socorro efectivo, apressamo-nos rumo á praia. –Não – nenhum médico – disse-nos o barqueiro indígena. Ouvimos então alguém que nos chamava. Era Fialelei.
- Veio de tão longe, apenas para vernos? – Perguntei.
- Ouvi falar na epidemia, e fiquei preocupada, - respondeu. A rapariga tinha deixado os seus pagos, e vindo para uma aldeia, assolada de peste, por bondade para conosco, - uma família estranha com a qual só convivera duas curtas semanas.
A epidemia levou grande número de vidas. Annie foi atingida. Dias houve em que perdemos totalmente a esperança de salvá-la. Não sei o que teria sido de nós, sem Fialelei. Encarregava-se de ferver a  água, de ver que as frutas e os legumes estivessem intactos, pois a menor arranhadura na casca abriria caminho à infecção. Passava as noites sentada á cabeceira de Annie, quando o estado desta se agravo. Nem sei a que horas dormia.
Tabú ou não tabú, dava cabo das môscas, e obrigava os criados a fazê-lo. Um negociante do lugar exclamou, ao saber disto: - Vivo na ilha há tantos anos, e nunca vi indígena algum tocar nas moscas! – Dentro de algum tempo, a epidemia entrou a declinar. Annie sarou, o calor decresceu, as fôlhas dos coqueiros balouçaram ao sôpro do vento sul.
Vivíamos em contacto constante com as gentes da terra, como se formássemos todos uma família unida e numerosa. As crianças andavam por tôda a parte, com um «lava-lava» cingido ao corpo, e os colares de conta vermelha que Fialelei lhes colocava em volta do pescoço. A rapariga ensinava os pequenos a dansar, a nadar, a mergulhar, e dentro em breve êles sabiam de cor as lindas canções samoanas que ela, com frequência, cantava. Decidí que o nosso filme seria exibido, na América, ao som daquelas músicas nativas.
Como disse linhas acima, o que nos levara alí fôra o projeto do filme. Comecei entretanto a recear que não fosse possível pô-lo em prática. Tínhamos que escolher os atores entre os naturais do país, e dinheiro, para aquela gente, não significava cousa alguma. No  meu primeiro filme, «O Nanook do Norte», a eterna luta dos infatigáveis esquimaus contra a neve, o frio e a fome, constituíu, por si mesma, o drama. Os samoanos, esses tinham apenas de estender um braço preguiçoso, e as bananas douradas lhes caíam nas mãos. Como induzí-los, então, ao trabalho que nos interessava? Outros brancos, antes de nós, já o haviam tentado em pura perda. Víamo-nos em face dos costumes, dos modos de ser daquelas criaturas, incapazes de apreender os nossos objectivos. Havia além disso os obstáculos oriundos de rituais e formalidades da ilha; tínhamos que consultar, a cada momento, os chefes e cabeças de família. Era constante o perigo de violar os misteriosos e obscuros tabús.
Se «Moana dos Mares do Sul» pôde, afinal, surgir na tela, foi graças a Fialelei. Ela aprendera inglês em uma escola de missionários e, sendo neta de um grande chefe, conhecia todas as intrigas e etiquetas da ilha, e podia discutir qualquer questão com os chefes. Compreendo bem a situação, e desejosa de servir-nos, tornou-se a nossa intérprete, conselheira diplomática e emissária, no que muito a ajudou o conhecimento que tinha do protocolo nativo.
Discutíamos, todas as noites, o trabalho a realizar no dia seguinte. Fialelei, que assistia à troca de idéias, procurava dominar sua natural timidez, fazendo-nos diferentes sugestões. Por vezes, quando já tínhamos tudo pronto para a filmagem, a nossa amiga descobria que a heroína esquecera algum detalhe importante no vestuário. Zangada, e reprovando a distracção, mandava que a rapariga fosse imediatamente buscar o enfeite que esquecera.
Quando, por já não sei que motivo, um negociante branco do lugar, cuja palavra era lei para a gente da terra, se irritou com o nosso projecto, e tentou persuadir os naturais a que não representassem para nós, Fialelei foi dizer aos chefes que aquela ilha, escolhida entre todas, como fôra, se tornaria famosa no mundo inteiro graças ao filme, e êste lhes daria nome e glória. E a cousa foi por diante.
Sempre que disponha de tempo, levava as crianças, montadas em porcos, a uma lagoa não distante, junto a uma rocha de que pendiam longas hastes flexíveis. Agarrando-se a elas, a rapariga se deixava balouçar, de um lado para o outro, traçando largas curvas no espaço, e caía no lago, llá do alto, levantando grossos borrifos de água. Tinha um todo gracioso, quando caminhava ou corria; mas, assim, era de facto incomparável. Vê-la nadar com tanta graça, e tão naturalmente, cercada dos meus garotos, que, quando as suas forças o permitiam, a acompanhavam de perto, constituía verdadeiramente um deleite para os olhos. Tendo embora muito finos os tornozelos e os pulsos, Fialelei, entretanto, era extraordinária e forte. Carregou, certa feita, meu irmão, que pesa cêrca de 90 quilos, como se fosse uma pluma.
Finalmente, ao cabo de dois anos em samoa, terminámos o filme. Não nos passou, é claro, pela ideia deixar Fialelei. Enquanto esperávamos o navio, em Apia, minha mulher preparou-a para o clima do norte. O problema dos sapatos foi de solução difícil, pois Fialelei nunca os calçara e, relativamente ao seu tamanho, tinha os pés muito grandes.
A viagem, no navio dos brancos, assumiu no seu espírito proporções de maravilha. Aprendeu a jogar o deck tennis com extrema habilidade. Nadavam todos os dias, o capitão e ela, como verdadeiras focas. Na manhã em que chegámos a São Francisco, a cidade se achava mergulhada na bruma. Ouví junto de mim um soluço profundo. Era Fialelei – nunca vira a neblina, em toda a sua vida. No hotel, ficou simplesmente fascinada pelo elevador. – Que andar? – Perguntava-lhe o ascensorista. – Nenhum andar – respondia. – Vou até lá em cima, e depois até lá em baixo.
Seguimos dalí para Hollywood, e depois para Nova York. Aí permaneceu conosco um ano. Adorava balas, sorvetes e maçãs. As pipocas encantavam-na. Contemplou os arranha-céus e os prodígios de engenharia com o devido respeito; mas era propriamente o povo o que mais curiosidade lhe despertava. Um dia, como olhássemos do alto a multidão que passava pela Quinta Avenida, perguntou-me surpresa: - Como é que estas pessoas todas passam umas pelas outras sem trocar uma palavra?
Falando-nos alguém nuns dançarinos somoanos que se exibiam em Coney Island, levámos Fialelei a vê-los, sem a avisar do que se tratava. Quando ela ouviu a música, e viu os dançarinos, pulou no palco e, num abrir e fechar de olhos, ei-la a dansar com eles! Terminado o espectáculo, reuniram-se aqueles samoanos, a milhares de milhas do seu país distante, e entraram a trocar impressões, entre sorrisos mas, sem embargo, nostálgicos.
Ao sermos notificados pelo Departamento de Imigração de que a rapariga devia regressar a Samoa, tentámos em vão demover os agentes daquele serviço. Ao vê-la partir, as crianças e Annie puseram-se a chorar desabaladamente. Fialelei, muito a custo, libertou-se dos braços que a prendiam e, sorrindo corajosamente, no meio do pranto que lhe inundava o rosto, acenou-nos com um adeus.
«Todos foram gentís comigo no trem» - escreveu-nos, alguns meses mais tarde. - «Do mesmo modo, no navio. Irei até Safune, para dar, a todos lá, notícias de vocês. Escrevam-me, por favor. Estou de novo sozinha, como sabem, e sem nada senão o meu aloafa (afeto) por vocês.»
Passou-se isto há 18 anos. Recebemos muitas cartas; porém nunca mais a vimos.
O seu nome queria dizer «Aquela que deseja o bem a todos». Nem era outra aliás, a sua norma de vida. Um de nossos amigos, teve ocasião de conhecê-la, costumava dizer que Fialelei era uma página viva do Evangelho.

Fonte: Revista  Selecões do Reader’s Digest (Maio de 1942)
Texto: Robert Flaherty
Foto da Revista
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