quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Fialelei


Chamou-nos a atenção, logo que chegamos à pequena cidade de Apia, na Samoa Britânica, aquela rapariga polinesiana, de uns vinte e três anos, descalça e com um vestido estampado com desenhos floridos. Vendo-a por tôda a parte, percebemos, em breve, que nos seguia os passos. O mercador, que interrogámos sôbre quem seria ela, respondeu simplesmente: «Fa’a-Samoa – costumes de Samoa – quer apenas travar relações.»
Levara-nos ali o projecto de um filme sobre a vida nativa nos mares do Sul. Éramos sete ao todo – minha mulher, meus três filhos pequenos com a governante irlandesa, Annie, meu irmão e eu. Escolhemos Savii, no extremo oeste das ilhas de Samoa, para fornecer quadros e cenas ao filme documentário, e o vilarejo de Safune, como quartel-general. Detivemo-nos em Apia afim de regularizar certos papéis, e adquirir numa alfaiataria as roupas leves necessárias.
Certa feita, como os meus filhos brincassem em frente do bangalô onde nos hospedáramos, a rapariga samoana ficou a contemplá-los de longe, até que, num dado momento, a bola com que jogavam rolou na estrada. Surgiu assim o pretexto, por que ela andava ansiosa. Apanhou-a do chão e, dirigindo-se para as crianças, murmurou timidamente: «Meu nome é Fialelei.»
Eles sorriram, ela respondeu com outro sorriso, e tornaram-se desde então grandes amigos. Os meninos trouxeram-na à varanda onde nos achávamos sentados. «Por favor», desculpou-se a rapariga - «Fa’moli-moli – Que os seus corações se aquietem. Estou apenas brincando com os pequenos». Tinha uma voz deliciosamente suave -. «Fez bem em vir» -, respondemos.
Daquele dia em diante, vimo-la sempre a fazer companhia aos meninos. Cuidava além disso, de Annie, a quem o calor opressivo fizera mal. Dormia em nossa rêde, na varanda. Quando Annie melhorou, disse que Fielelei fôra um presente dos céus. Descobrimos que o nome Fialelei significava: «aquela que deseja bem a todos». Ia-lhe o nome à perfeição.
Quando embarcámos para Savii, despedimo-nos de Fialelei. A rapariga beijou as crianças a seu modo, isto é, esfregando-lhes o rosto com o nariz. Quis pagar-lhes os serviços que prestara. Não aceitou; e disse, cruzando os braços atrás das costas:- Só o facto de os ter conhecido basta para regalar-me de prazer.
Houve já quem descrevesse Safune como um verdadeiro paraíso. Não fosse a praga de môscas, efectivamente o seria. Embora protegêssemos o bengalô com telas, algumas, ainda assim, entravam. Não há conselhos ou advertências com que os brancos tenham podido persuadir os nativos da ação perigosa das môscas. Não conseguimos convencer jamais, sequer os nossos próprios empregados, de que deveriam exterminá-las. Tabú, diziam, sacudindo a cabeça. Nestas condições irrompendo de súbito na aldeia um surto epidémico de desinteria amebiana, as môscas espalharam-se por tôda a parte e casa não houve, na localidade, em que não encontrasse pelo menos uma vítima do mal. Pedimos a Deus que protegesse a nossa.
Certa noite, um barco atracou em Safune. Na esperança de que trouxesse de Apia algum socorro efectivo, apressamo-nos rumo á praia. –Não – nenhum médico – disse-nos o barqueiro indígena. Ouvimos então alguém que nos chamava. Era Fialelei.
- Veio de tão longe, apenas para vernos? – Perguntei.
- Ouvi falar na epidemia, e fiquei preocupada, - respondeu. A rapariga tinha deixado os seus pagos, e vindo para uma aldeia, assolada de peste, por bondade para conosco, - uma família estranha com a qual só convivera duas curtas semanas.
A epidemia levou grande número de vidas. Annie foi atingida. Dias houve em que perdemos totalmente a esperança de salvá-la. Não sei o que teria sido de nós, sem Fialelei. Encarregava-se de ferver a  água, de ver que as frutas e os legumes estivessem intactos, pois a menor arranhadura na casca abriria caminho à infecção. Passava as noites sentada á cabeceira de Annie, quando o estado desta se agravo. Nem sei a que horas dormia.
Tabú ou não tabú, dava cabo das môscas, e obrigava os criados a fazê-lo. Um negociante do lugar exclamou, ao saber disto: - Vivo na ilha há tantos anos, e nunca vi indígena algum tocar nas moscas! – Dentro de algum tempo, a epidemia entrou a declinar. Annie sarou, o calor decresceu, as fôlhas dos coqueiros balouçaram ao sôpro do vento sul.
Vivíamos em contacto constante com as gentes da terra, como se formássemos todos uma família unida e numerosa. As crianças andavam por tôda a parte, com um «lava-lava» cingido ao corpo, e os colares de conta vermelha que Fialelei lhes colocava em volta do pescoço. A rapariga ensinava os pequenos a dansar, a nadar, a mergulhar, e dentro em breve êles sabiam de cor as lindas canções samoanas que ela, com frequência, cantava. Decidí que o nosso filme seria exibido, na América, ao som daquelas músicas nativas.
Como disse linhas acima, o que nos levara alí fôra o projeto do filme. Comecei entretanto a recear que não fosse possível pô-lo em prática. Tínhamos que escolher os atores entre os naturais do país, e dinheiro, para aquela gente, não significava cousa alguma. No  meu primeiro filme, «O Nanook do Norte», a eterna luta dos infatigáveis esquimaus contra a neve, o frio e a fome, constituíu, por si mesma, o drama. Os samoanos, esses tinham apenas de estender um braço preguiçoso, e as bananas douradas lhes caíam nas mãos. Como induzí-los, então, ao trabalho que nos interessava? Outros brancos, antes de nós, já o haviam tentado em pura perda. Víamo-nos em face dos costumes, dos modos de ser daquelas criaturas, incapazes de apreender os nossos objectivos. Havia além disso os obstáculos oriundos de rituais e formalidades da ilha; tínhamos que consultar, a cada momento, os chefes e cabeças de família. Era constante o perigo de violar os misteriosos e obscuros tabús.
Se «Moana dos Mares do Sul» pôde, afinal, surgir na tela, foi graças a Fialelei. Ela aprendera inglês em uma escola de missionários e, sendo neta de um grande chefe, conhecia todas as intrigas e etiquetas da ilha, e podia discutir qualquer questão com os chefes. Compreendo bem a situação, e desejosa de servir-nos, tornou-se a nossa intérprete, conselheira diplomática e emissária, no que muito a ajudou o conhecimento que tinha do protocolo nativo.
Discutíamos, todas as noites, o trabalho a realizar no dia seguinte. Fialelei, que assistia à troca de idéias, procurava dominar sua natural timidez, fazendo-nos diferentes sugestões. Por vezes, quando já tínhamos tudo pronto para a filmagem, a nossa amiga descobria que a heroína esquecera algum detalhe importante no vestuário. Zangada, e reprovando a distracção, mandava que a rapariga fosse imediatamente buscar o enfeite que esquecera.
Quando, por já não sei que motivo, um negociante branco do lugar, cuja palavra era lei para a gente da terra, se irritou com o nosso projecto, e tentou persuadir os naturais a que não representassem para nós, Fialelei foi dizer aos chefes que aquela ilha, escolhida entre todas, como fôra, se tornaria famosa no mundo inteiro graças ao filme, e êste lhes daria nome e glória. E a cousa foi por diante.
Sempre que disponha de tempo, levava as crianças, montadas em porcos, a uma lagoa não distante, junto a uma rocha de que pendiam longas hastes flexíveis. Agarrando-se a elas, a rapariga se deixava balouçar, de um lado para o outro, traçando largas curvas no espaço, e caía no lago, llá do alto, levantando grossos borrifos de água. Tinha um todo gracioso, quando caminhava ou corria; mas, assim, era de facto incomparável. Vê-la nadar com tanta graça, e tão naturalmente, cercada dos meus garotos, que, quando as suas forças o permitiam, a acompanhavam de perto, constituía verdadeiramente um deleite para os olhos. Tendo embora muito finos os tornozelos e os pulsos, Fialelei, entretanto, era extraordinária e forte. Carregou, certa feita, meu irmão, que pesa cêrca de 90 quilos, como se fosse uma pluma.
Finalmente, ao cabo de dois anos em samoa, terminámos o filme. Não nos passou, é claro, pela ideia deixar Fialelei. Enquanto esperávamos o navio, em Apia, minha mulher preparou-a para o clima do norte. O problema dos sapatos foi de solução difícil, pois Fialelei nunca os calçara e, relativamente ao seu tamanho, tinha os pés muito grandes.
A viagem, no navio dos brancos, assumiu no seu espírito proporções de maravilha. Aprendeu a jogar o deck tennis com extrema habilidade. Nadavam todos os dias, o capitão e ela, como verdadeiras focas. Na manhã em que chegámos a São Francisco, a cidade se achava mergulhada na bruma. Ouví junto de mim um soluço profundo. Era Fialelei – nunca vira a neblina, em toda a sua vida. No hotel, ficou simplesmente fascinada pelo elevador. – Que andar? – Perguntava-lhe o ascensorista. – Nenhum andar – respondia. – Vou até lá em cima, e depois até lá em baixo.
Seguimos dalí para Hollywood, e depois para Nova York. Aí permaneceu conosco um ano. Adorava balas, sorvetes e maçãs. As pipocas encantavam-na. Contemplou os arranha-céus e os prodígios de engenharia com o devido respeito; mas era propriamente o povo o que mais curiosidade lhe despertava. Um dia, como olhássemos do alto a multidão que passava pela Quinta Avenida, perguntou-me surpresa: - Como é que estas pessoas todas passam umas pelas outras sem trocar uma palavra?
Falando-nos alguém nuns dançarinos somoanos que se exibiam em Coney Island, levámos Fialelei a vê-los, sem a avisar do que se tratava. Quando ela ouviu a música, e viu os dançarinos, pulou no palco e, num abrir e fechar de olhos, ei-la a dansar com eles! Terminado o espectáculo, reuniram-se aqueles samoanos, a milhares de milhas do seu país distante, e entraram a trocar impressões, entre sorrisos mas, sem embargo, nostálgicos.
Ao sermos notificados pelo Departamento de Imigração de que a rapariga devia regressar a Samoa, tentámos em vão demover os agentes daquele serviço. Ao vê-la partir, as crianças e Annie puseram-se a chorar desabaladamente. Fialelei, muito a custo, libertou-se dos braços que a prendiam e, sorrindo corajosamente, no meio do pranto que lhe inundava o rosto, acenou-nos com um adeus.
«Todos foram gentís comigo no trem» - escreveu-nos, alguns meses mais tarde. - «Do mesmo modo, no navio. Irei até Safune, para dar, a todos lá, notícias de vocês. Escrevam-me, por favor. Estou de novo sozinha, como sabem, e sem nada senão o meu aloafa (afeto) por vocês.»
Passou-se isto há 18 anos. Recebemos muitas cartas; porém nunca mais a vimos.
O seu nome queria dizer «Aquela que deseja o bem a todos». Nem era outra aliás, a sua norma de vida. Um de nossos amigos, teve ocasião de conhecê-la, costumava dizer que Fialelei era uma página viva do Evangelho.

Fonte: Revista  Selecões do Reader’s Digest (Maio de 1942)
Texto: Robert Flaherty
Foto da Revista
𺰘¨¨˜°ºðCarlosCoelho𺰘¨¨˜°ºð

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Maternidade


Quando eu passei, já parira.
Já não vi o milagre
em toda a sua inteireza.
- Vi apenas
o chibinho buscando, sem achá-las,
as tetas maternais.

Sómente sombras, árvores e céus
lhe haviam assistido.
Nem de mais precisou, p’ra se partir
em duas vidas iguais.

(Seria por acaso que eu passei?)

O chibinho balia.
Ela, calada,
suspeito que pensava o que pensei:
cabra ou mulher, naquele instante enorme
o respeito devido é sempre o mesmo.

Ah!, que eu já sei, já sei como os cabritos
dizem Mãe!

O chibinho balia.
Fez-se um grande silêncio em volta do
                                                            Mistério:
tudo, à volta, se enchia
do balido tão flébil…
Como que a Natureza se cansara
de ser pagã,
e submissa, suspensa, ajoelhada,
virgem de Graça, atendia
de aquele enorme instante misterioso
a esmola de ser santificada.

Fonte: Almanaque Diário de Notícias (1954)
Texto/Autor: Sebastião da Gama (Do livro «Cabo da Boa Esperança»)

Foto da Net
𺰘¨¨˜°ºðCarlosCoelho𺰘¨¨˜°ºð

domingo, 30 de dezembro de 2018

A Noite Treme


Os cães vadios chegavam em bando, vindos do escuro do pinhal, magríssimos, amarelos ou cinzentos, com feridas no lombo e de nariz junto à terra, a murmurarem. Aproximávamo-nos e fugiam com medo. Comiam pássaros mortos, carcaças de coelho, detritos. Às vezes, ao crepúsculo, sentia-os à volta da casa, procurando os sobejos do lixo no caixote: restos de frango, ossos, farrapos de embalagens de margarina, caroços de fruta. De tempos a tempos soluçavam, não ladravam nunca. Um deles, de pata mirrada no ar, caminhava com as outras três e as velhas, sentadas de lado nos burros, ameaçavam-nos com a bengala. Ou então dava com os cães de roda da capoeira a mirarem as galinhas. A cozinheira achava que eram almas penadas de gatunos. Os miúdos matavam-nos à pedrada, sob os castanheiros, e os animais ficavam para ali, cheios de moscas, a enterrarem-se sozinhos: quando não se enterra uma coisa viva a coisa sepulta-se sem ajuda, a pouco e pouco. As formigas auxiliam. E umas lagartas esquisitas, esbranquiçadas: tantos mistérios no mundo. Os arco-íris, por exemplo, ou os milhafres da montanha, quietos lá em cima, a escolherem o vento. Tornei a dar por eles em África. Pelo menos parecam.me  eles, só que maiores e mais imóveis ainda. A única coisa que me surpreendia era a cozinheira não estar lá, a repetir
- Os milhafres
Pasmada. Um dia adoeceu do peito e levaram-na. Desceu as escadas amparada a dois bombeiros. Lembro-me das pantufas e de segredar, pela dificuldade de boca
- Não tornaremos a encontrar-nos menino.
E não tornámos a encontrar-nos, realmente: o hospital de Viseu tão longe. Tudo tão longe nesse tempo, as caras dos adultos quase junto ao tecto, as cadeiras enormes e o mundo a encolher com os anos. Quando fica pequeno adoecemos nós: já vão sendo horas de arranjar umas pantufas.
Aqui, onde estou, a noite treme: não são as árvores, não são as sombras, não é a roupa, pendurada nos fios, que mal se distingue: quem treme é a noite.
Move-se devagarinho na direcção de quê’ uma ambulância a chorar na avenida, coroada de lâmpadas azuis e encarnadas: deve ser a cozinheira a atravessar Lisboa. Lucília. A mala dela debaixo da cama, quase vazia, uma santinha fosforescente no vão da janela, brincos de pobre numa latita. Cheirava a lenha e a azedo, começava a ter rugas em torno da boca: se durasse uns meses mais tornava-se uma velha sentada de lado no burro a ameaçar os cães vadios com a bengala. Ao almoço tiravam uma batata crua do xaile e principiavam a roer-lhe a casca numa lentidão avarenta, enquanto os maridos, de boné, arrastavam a bota esquerda no largo. Reparando bem como a noite treme. Ou será a minha mão no papel? Avança e recua na cadência do sangue e eu a dilatar-me e a encolher-me com ela. Vontade de lhe chamar diminutivos: noitinha. Tão bonitos os diminutivos na nossa língua. Noitinha. Não tornamos a encontrar-nos, menino. E os brincos de pobre que não saem da ideia, a ferrugem na latita. Em cada ambulância é ela a circular na cidade, sem repouso. Não há hora que não a oiça, à roda, à roda. Se me aproximasse da ambulância fugiria com medo, como os cães? Ou levava-me à despensa
- Apetece-lhe um quadradinho de marmelada?
e ficava a ver-me comer, muito séria. Que queres de mim, noitinha, que não paras de chamar-me? Oiço o meu nome. Oiço o pêlo do tapete crescer, devo sentir-me sozinho, sinto-me sozinho, noitinha, confesso que me sinto sozinho:  não há por acaso um burro aí para eu me sentar de lado com a minha batata no xaile? Roê-la mesmo crua, mesmo com casca? Cheirar a azedo e a lenha? Os milhafres em Portugal, os milhafres em África. As cadeiras enormes, tudo enorme. Apagar as luzes e ficar na casa vazia, de olhos abertos, à espera que qualquer coisa venha e me leve, não importa para que sítio desde que seja longe, onde ninguém me chama. De qualquer maneira, mesmo que permaneça á secretária, ninguém há-de chamar-me.

Fonte: Revista Visão
Texto/ Autor: António Lobo Antunes
Foto: Susana Monteiro/re-searcher.com
𺰘¨¨˜°ºðCarlosCoelho𺰘¨¨˜°ºð

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

O esconderijo das galinhas


Todas as madrugadas a minha mãe levava-me para casa dos meus avós. Ainda o sol não tinha aparecido, era escuro e fresquinho. Eu ficava lá  até à hora de ir para a escola e os meus pais irem trabalhar. Ali passei toda a minha infância e adorava lá ficar.
A casa não era muito espaçosa, mas o quintal era o meu paraíso. O meu avô cuidava muito bem dele. Havia árvores de frutos, pereiras carregadas. As peras pareciam enferrujadas mas eram bem doces quando estavam maduras. As parreiras eram três, uma de uva preta bem pequenina, que o meu avô usava muito para fazer vinho. As outras eram rosa e branca. Além de toda a fruta havia uma plantação que a avó cuidava, com chás e ervas que os vizinhos vinham sempre procurar.
No fundo deste quintal havia um galinheiro com vários tipos de galinhas, brancas, vermelhas e umas diferentes que não sei bem se eram galinhas-de-angola. Só sei que faziam um barulho engraçado!
Um dia resolvi que iria procurar uma forquilha para a minha fisga. Nós brincávamos ao tiro ao alvo com elas e fazíamos campeonatos para ver quem atirava mais longe a pedra. Nunca a usei para fazer maldades.
Subi  à árvore mais alta e fiquei lá à procura. De repente encontrei, num canto do quintal bem ao fundo… Uma mancha branca? Um monte de pedras? Ora, o que seria?
Fiquei curioso e resolvi descer. Fui directo ao lugar, e que surpresa! Era um monte de ovos de galinha.
Corri para dentro de casa e chamei a minha avó, que não pareceu surpreendida. Levou uma cestinha de palha e pegou nos dez ovos que ali estavam. Então explicou-me que as galinhas costumam ter esconderijos no quintal.
-Vê, são ovos diferentes uns dos outros.
E realmente eram. Mais tarde chamou-me: tinha feito um bolo de iogurte delicioso usando alguns ovos do esconderijo.
Mais uma coisa para eu espiar: agora seria os esconderijos das galinhas.
Acabei de fazer a minha fisga e mostrei-a ao meu avô que estava a fazer um banquinho para mim.
- Cuidado, menino, isso é uma arma, vê lá o que vais fazer com ela!
- Pode ficar descansado avô. Não se esqueça do meu carrinho de rolamentos.
Fizemos o campeonato e eu perdi – pudera, a minha fisga estava com defeito.
Pois claro, só pensava em encontrar os esconderijos das galinhas!

Fonte: Revista Terra do Nunca
Texto/Autor:
Foto da revista
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segunda-feira, 29 de outubro de 2018

De Tarde


Naquele piquenique de burguesas
Houve uma coisa simplesmente bela
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo o burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão de bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, ainda o sol se via:
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.

Mas todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

Fonte: Almanaque Diário de Notícias
Texto/Autor: Cesário Verde

Foto da Net
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sexta-feira, 28 de setembro de 2018

A missão do Anjo Serafim


Entre os anjos do céu havia um que se chamava Serafim e que era um anjo importante, mas era também um bocado traquinas. Vivia a fazer brincadeiras com os amiguinhos. Puxava as trancinhas das anjinhas, prendia as asas dos outros anjos com molas da roupa, fazia «buuuuuuuuuu» para assustar São Pedro, na portaria do céu, e colocava nuvens na Lua para apagar o brilho. Mas, mesmo sendo tão rebelde, era muito querido pelo anjo Guardião, responsável pela ala onde viviam os anjos.
Um dia Deus chamou o Guardião à sua sala. Os megafones do Céu retumbaram:
- Atenção, senhor Guardião dos anjos, compareça à sala do Altíssimo!
Esse chamado foi repetido várias vezes. O Guardião tomou conhecimento. Arrumou a sua vestimenta, aprumou as asas, ajeitou a auréola de luz da sua cabeça, iluminou o rosto com um sorriso e lá foi para a sala do Pai.
Chegou e bateu timidamente. A voz grave veio lá de dentro:
- Entra, meu filho!
O Guardião entrou e viu na face do Pai toda a bondade, toda a placidez que existe no universo.
Então ele disse:
- Pai, estou à espera das suas ordens!
Deus chamou-o para perto de si e, sorridente, cochichou ao seu ouvido. Depois disse, convicto:
- Que se cumpra!
Enquanto isso, na sala dos anjos havia um forte burburinho. O que seria que Deus queria conversar com o anjo Guardião? Neste momento entra o Guardião, muito sério.
- Crianças, o Senhor destinou uma tarefa para um de vocês. Não era fácil, porque a tarefa não será no Céu, será na Terra.
Ouviu-se, em uníssono, o «oh» dos anjos. Realmente será uma missão quase impossível. Humanos não são fáceis. E o anjo? Qual deles estava designado para essa tarefa? Mais uma vez, ouviu-se a voz do Guardião:
- O anjo escolhido por Deus é o anjo Serafim…
Nesse momento todos exclamaram: «Chiiiiiiiiiiiii!» Eles não acreditavam muito no pobre do Serafim. O Guardião continuou a falar:
- O anjo escolhido tem a missão de salvar as baleias dos mares da Terra e tem sete dias para fazer o trabalho.
Um anjo curioso perguntou:
- Porque é que Deus quer que sejam salvas as baleias?
- Porque elas fazem parte do equilíbrio do ecossistema do planeta. Cada animal, cada planta, cada macro e microrganismo, são um elo da corrente. Quebrado um elo, todo o sistema desaba. O ecossistema da Terra já está quase falido porque o homem não sabe cuidar da casa que Deus lhe deu.
E Serafim desceu á Terra para cumprir a sua missão. Assustou-se com o movimento de carros, tossiu com o ar poluído, viu a devastação das matas, a erosão do chão, tremeu diante da poluição das águas e até chorou quando viu a enormidade de lixo a boiar nos rios e nos mares. Já estava no terceiro dia. Partiu para o oceano para conhecer as baleias.



Ficou com o coração partido ao ver aqueles barcos com homens arpoando os enormes animais. Ficou pairando no ar a imaginar como ele, tão pequenino, poderia salvar aquele imenso animal, caçado por outro mais pequeno. Já estava no sexto dia e ele ainda não sabia como fazer para salvar as baleias. Voltou para terra. Fico invisível no cais, vendo e ouvindo as pessoas. Foi neste momento que chegou um grupo indignado com aquela matança.
- Veja – dizia uma mulher -, a baleia-azul, a orca e o cachalote já são tão poucos nos oceanos.
E ficaram a contar as baleias mortas que eram descarregadas no cais.
Então Serafim teve uma ideia. Aproximou-se do grupo e soprou, ao ouvido de uma das pessoas, a ideia:
- Pessoal, já sei como vamos acabar com isto!
- Como? – perguntou um homem alto e forte.
- Vamos partir para o mar em barcos, botes, seja lá o que for, com megafones no volume máximo, ficaremos á frente do baleeiro e só sairemos quando eles desistirem. Se algum de nós morrer, será por uma causa justa.
E assim foi feito. Embora não tenham acabado, totalmente, com a mortandade das baleias, ela diminuiu um pouco. Foi muito trabalho. Muita luta com os países que defendem a caça sem limites das baleias.
Isto aconteceu no sétimo dia da missão de Serafim. Feliz, ele voltou para o Céu. Todo o colectivo de anjos estava em festa. Tinha sido cumprida a ordem de Deus. O anjo Guardião entregou a medalha de «honra e mérito» a Serafim, sob os aplausos de todos. Depois da recepção, o Guardião pegou Serafim pela mão e subiu com ele para a esfera mais alta do Céu, onde habita Deus, porque a partir daquele instante, Serafim tornou-se um dos anjos que estão á direita de Deus.



Fonte: Revista Terra do Nunca

Fotos: Carla Antunes
𺰘¨¨˜°ºðCarlosCoelho𺰘¨¨˜°ºð

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Um Serão a dois


Diz-se que, quando a paixão se vai, fica o amor ou o companheirismo. Anabela e Luís estavam casados há quatro anos e há muito que tinham apagado o fogo dos afectos. O que restava agora, para além das séries de televisão?
- Oh mulher, quando é que te decides a vir para a cama?
Luís estava na casa de banho, a lavar os dentes, e mostrava uma certa impaciência.
- Já vou; estou a ver a série dos médicos com o George Clooney – respondeu Anabela da sala, emocionada com o que se passava no ecrã.
- Claro tinha de ser o Clooney – explodiu ele.
- Ora, e tu gostavas de ver as Marés Vivas por causa das beldades que lá apareciam – retorquiu ela, pensando que, com tal argumento, arrumava o caso. Estava enganada.
- Não é verdade. Não era por causa das mulheres. Sempre gostei de ver aquele actor, o que tinha o carro todo artilhado e que falava.
- Pois é. Eu também vejo o Serviço de Urgência, porque gosto de ver feridos deitados em macas.
- Anda mas é deitar-te mulher – insistiu ele.
Como não obtivesse reacção, Luís foi á sala.
- Então? – Perguntou ele encostado à porta.
- Então o quê?
- Apaga o televisor.
- Chiuuu. Espera …
Anabela não estava ali. Embevecida com o desenrolar da história, tinha perdido por completo o contacto com a Terra. Nessa altura, o protagonista, de bata branca meio desabotoada, beneficiando de um ângulo de luz no rosto bem barbeado, simulava uma massagem cardíaca a um septuagenário encontrado, inanimado, minutos antes.
- Se não é o Clooney é o Rod Stewart e as suas cantiguinhas marialvas. Deve ter sido por isso que oxigenaste o cabelo. Como sabes que o gajo gosta de loiras. Pintaste o cabelo na esperança de que te leve a passear de Ferrari.
- Parvo, cala-te.
Anabela não desgrudava do ecrã e luís desesperava.
- Ainda bem que não te embeiçaste pelo De Niro, que tem queda pelas escuras. Então aí devias mascarrar-te toda com carvão ou graxa.
- Isso tudo é ciúme – disparou Anabela.
- Ciumes? Deves ser parva. Não consigo é perceber toda essa baboseira com Clooneys, Rods e outros marmanjões.
- E tu com as Pamelas Andersons? Com as Fernandas Serranos?
- Quero lá saber delas…
- Ah é? E as revistas pornográficas que tinhas no carro? Hum?
-Isso foi o Lopes que se esqueceu delas no dia em que lhe dei boleia para casa.
- Santinho.
- Não espirrei.
- Que graça.
- Não tem graça nenhuma.
E o gajo da mercearia?
- O que é que tem o gajo da mercearia?
- Diz-me tu. Rara é a vez que não tens de la voltar porque te esqueces-te do esparguete ou da margarina.
- Não mereces resposta.
Agora cala-te, que vai começar a série.
Luís ficou a remoer ameaças. Anabela concentrou-se.
- Gostava de saber para que casaste comigo. Se fosse o Clooney que aqui estivesse, já estavas na cama, toda cheirosa e de língua de fora.
- Vai mas é babar-te para cima das fotos da Pamela…
Nem completou a frase. Uma falha de electricidade lançou a casa na escuridão.
- Bolas – berrou ela.
- Ainda há justiça – proferiu Luís, enquanto puxava os cobertores até ao pescoço.
Anabela tacteou as paredes do corredor, dirigindo-se para o quarto.
- E agora? – Perguntou ela.
- Agora o quê? Vai acender uma vela e lava os dentes.
- Tu devias ir para a tropa.
Pareces um sargento. E que conversa foi aquela do merceeiro? Estás a passar-te?
- Tu é que me fazes passar da cabeça com as tuas manias dos actores e dos cantores.
- És tu que me dizes isso, que não podes ver uma “burra de saias”.
- Oh Anabela, e se nos deixássemos de discussões e aproveitássemos este escurinho bom?
Luís tirou o braço debaixo dos cobertores e tentou tocar Anabela.
- Está quietinho, que não estou com disposição para brincadeiras.
- Ah é? Dói-te a cabeça, por acaso? É o costume, aliás.
- Que engraçado. E tu, quando te queixas de que estas cansado? Que tens tido muito stress no emprego?
Luís ia responder, mas Anabela já retrocedera, saindo do quarto em busca de uma vela. Foi nesse momento que a luz veio. Ambos ficaram satisfeitos. Ele foi-se pôr atrás de Anabela, entretanto ocupada a lavar os dentes.
- Anda cá meu anjinho cheiroso – disse ele.
- Que queres? – Perguntou ela, adoçando o olhar.
- Ainda é cedo. Podíamos fazer qualquer coisa.
- O quê?
- Não sei. Podíamos ir até à praia e fazer amor no carro, junto às arribas.
- Não, está frio e ainda tínhamos de fazer uns 20 ou mais quilómetros. Só se for uma saída para irmos dançar.
- Dançar? Dói-me um pé. E detesto pagar uma fortuna por um dedo de uísque e quilos de gelo.
Ficaram os dois pensativos por um bocado. Depois, em simultâneo, disseram:
- Amo-te.
Riram e beijaram-se. No minuto seguinte, estavam pregados frente ao televisor, abraçados. Assim ficaram o resto do serão, a ver um filme como Van Damme.

FIM
Fonte: Revista Maria
Texto/ Autor : V.F.F
Foto da revista
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sexta-feira, 27 de julho de 2018

Noite de chuva


Chuva… Que gotas grossas!... Vem ouvir:
Uma… duas… mais outra que desceu…
É Viviana, é Melusina, a rir,
São rosas brancas dum rosal do céu…

Os lilases deixaram-se dormir…
Nem um frémito… a Terra emudeceu…
Amor! Vem ver estrelas a cair:
Uma… duas… mais outra que desceu…

Fala baixo, juntinho ao meu ouvido,
Que essa fala de amor seja um gemido,
Um murmúrio, um soluço, um ai desfeito…

Ah! Deixa à noite o seu encanto triste!
E a mim… o teu amor que mal existe,
Chuva a cair na noite do meu peito!

Fonte: Almanaque Diário de Notícias (1954)
Texto/Autor: Florbela Espanca
Foto da net
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terça-feira, 26 de junho de 2018

O Chiquinho


Num quarto andar da Rua de Latino Coelho vive alegre e satisfeito, na sua gaiola, o «Chiquinho», lindo e manso periquito. Tem o peito de cor azul, asas cinzentas mescladas de branco, penas alvas e aveludadas na cabeça, e, por baixo do bico, ostenta seis pintas também azuis, sem esquecer a cauda, que possui tons de safira mordida por feixes de luz.
O «Chiquinho» não é um periquito vulgar: adorando a gaiola, onde saltita, brinca e fala, atreve-se a vir até ao ombro dos donos; aprecia o miolo de pão embebido em café com leite, à hora do pequeno almoço; delicia-se com a frescura das alfaces e o sabor agradável dos pêssegos; e, empoleirado nas mãos das pessoas amigas, os seus olhos minúsculos e pretos, muito luminosos e inocentes, enchem-se de ternura. Não tem medo de espécie alguma: supõe que toda a gente, que o afaga e acarinha, aprendeu os ensinamentos da alma de S. Francisco de Assis. Só há uma coisa que o amedronta – o frio do inverno, e, por isso, a sua gaiola, em tal quadra do ano, está protegida com tiras de lã. Aos domingos, quando a família se reúne para almoçar, o «Chiquinho» sacode as penas, pedindo assim que lhe abram a porta da gaiola. É vê-lo então: contentíssimo, considera a mesa propriedade sua, onde Deus espalha a fartura, para que ele possa debicar côdeas de pão, bagos de arroz e tudo o que mais lhe oferecerem. Mete-se nos copos ainda humedecidos pelo vinho, e, com a língua grossa e escura, lambe o vidro em busca de gotas do precioso líquido, que o fascina e encanta. Se lhe fosse permitido, «Chiquinho» gostaria de se embriagar em completa liberdade.
Se o mercúrio do termómetro baixa, logo ele prefere a gaiola às brincadeiras que se lhe proporcionam; se sai do poleiro, ultrapassando a portinhola aberta, procura, junto dos lábios dos donos, o bafo morno, que o aquece e reanima.
«Chiquinho» fala extraordinariamente bem, como simples periquito que é. Se há sol e barulho em dicção claríssima diz numa conversa quase seguida: «Meu menino», «Chiquinho pequenino», «Estás bonzinho?», «Da cá um beijinho», «Como está, seu Chiquinho?», «Vá dormir!». Quando o fazem zangar, exclama: «Ai, ai, ai!». Se quer chamar alguém, ouve-se-lhe um nítido e engraçado «Psiu!».
Calcula com maravilhosa exactidão a hora em que o dono volta do emprego, e, minutos antes, trila duas vezes e sacode as penas com frenesi. Quando este chega, saltita na gaiola como a querer saudá-lo em ímpetos de grata amizade.
Parece extasiar-se com a música, sempre por ele escutada atentamente através da telefonia e, dotado de óptima memória, procura imitar os sons que mais lhe agradam. Todo se alegra diante de um espelho, e, nesses instantes de felicidade, tagarela e tagarela, que é mesmo regalo dos olhos e do espírito observá-lo em plena loquenda.
«Chiquinho», periquito lindo e meigo, tem direito a possuir uma «biografia», e eis-nos a exalçar o seu modesto viver, por entre os carinhos duma família que o admira e adora.

Fonte: Almanaque Diário de Notícias (1954)
Texto/Autor: Desconhecido
Foto da revista
𺰘¨¨˜°ºðCarlosCoelho𺰘¨¨˜°ºð

sexta-feira, 25 de maio de 2018

A última boneca


A meio da doença cruciante,
No vivo empenho de a animar ainda,
Comprei-lhe uma boneca muito linda,
Que ela teve nas mãos um só instante.

Mas teve-a em suas mãos, e isso é bastante
Para que eu, muita vez, com mágoa infinda,
Beije a boneca, apetecendo a vinda
Da morte maternal, pacificante.

Pobre boneca! Ao ver meu desatino,
Mostrar pareces tal desconfiança
Que eu nem me atrevo a defrontar-me ao espelho.

E tens razão: erraste o teu destino!
Em vez de fazer rir uma criança,
Fazes chorar agora um pobre velho!

Fonte: Almanaque Bertrand
Texto/Autor: Eugénio de Castro
Foto da net
𺰘¨¨˜°ºðCarlosCoelho𺰘¨¨˜°ºð