sábado, 10 de junho de 2017

A Glória e a Morte


Leonel Badanas, o bombeiro, acaba de vestir a farda cheia de botões amarelos. Está diante do espelho e põe de várias maneiras o rebrilhante capacete. Vira-se para um lado e para o outro. Torna a mudar-lhe a posição sem se decidir por nenhuma. Mas, como não tem pressa, teima em pôr de acôrdo aquêle extraordinário chapéu com a alevantada e grave expressão do rosto.
Por fim, já com os músculos da cara doridos, sai, muito embora não vá plenamente satisfeito com os resultados do ensaio.

Na rua alarga um passo de ginasta e adianta o peito; a espinha flete em arco pondo em grande relêvo as nádegas magras. Apesar disso, Leonel Badanas sacode os braços com arrogância. Tem assim uns longes de galo, de asas meio-abertas, chispando raios de Sol da luzidia crista.
De repente, ao voltar a esquina, tropeça numa súbita idéia e tido aquilo se desfaz. Equilibra-se a custo. Fica uma farda amarrotada; lá dentro, um homenzinho mirrado com uma enorme campânula amarela na cabeça.
Desalentado, o bombeiro retrocede. Empurra a porta e grita, levantando, lentamente as mãos:
- Onde está a minha medalha?!
Sai do quarto uma mulher de feição apagada e receosa:
- Estive a areá-la… Esqueci-me…
- Vai busca-la, mulher!
«Que irritação! Por um pouco entrava no largo sem a medalha!... No largo, onde está toda a gente de Vila Boa à espera da chegada dos corredores!...». E, mesmo agora, enquanto a mulher lhe cose na farda a fitinha que segura a medalha, êle a descompõe.
- Olha se eu me esquecesse, hem?!... – repete  a cada instante.
Pouco depois sai. Rua fora, caminha de novo num passo largo e sêco; peito arqueado, nádegas saídas.
Dependurada no peito, a medalhinha branca agita-se em movimentos desordenados. E reluz ao Sol, num alegre desafio com o capacete.
///
Esta medalha ganhou-a Badanas no Inverno último. Os bombeiros formaram em parada, e o próprio comandante o condecorou. O facto que originaria tal prémio dera-se uns quinze dias antes.
Por um sol-pôsto frio, certo mendigo que ninguém conhecia em Vila Boa chegou ao largo e foi parar junto de uma das vendas. Os ossos saiam-lhe ao redor dos olhos tentando em vão esticar a pele enrugada e escura. O resto era uma confusão de pelos de côr indecisa que lhe tapavam a bôca e o peito. E, no meio das barbas, no fundo dos ossos brilhavam dois olhinhos negros e fixos.
Com mêdo que o enxotassem, como se faz aos cães, não se atreveu a entrar. Sòmente se encolheu ainda mais. Quási tocava com a barba nos joelhos, como se assim, miudinho e sumido, a nortada que corria pela planície não atentasse tanto contra a pele arroxeada que os farrapos destapavam a cada momento.
Em dada altura ergueu a mão que segurava a vara e emitiu uns sons ininteligíveis para um homem que se aproximara. O homem abanou a cabeça negando esmola.
Mas não era esmola que o velho pedia naquele momento. A única dificuldade estava em encontrar as palavras. Os olhos tinham a mesma negra fixidez, só as rugas cada vez mais cavadas ao redor denunciavam o doloroso esforço do cérebro. Conseguiu, por fim, juntar umas palavras. Acaso o homem sabia onde morava o Chico Rata? O homem apontou para um casebre já fora da vila, próximo da estrada que saia do largo.
Arrastou-se, pois aquilo não era bem andar. Ia todo em arco, com a vara numa das mãos e a outra, entre as pernas, premendo o intestino contra a verilha. Era quebrado. Em frente do casebre, os pêlos da barba mexeram-se, por debaixo do nariz, ao sôpro de uma palavra:
- Chico!
Dentro ninguém devia ter ouvido, tão fraca era a voz. Só muito depois apareceu uma mulher. Trazia um fogareiro que colocou no chão de modo a que o vento ajudasse a atear o lume. Feito isto voltou-se para o velho e disse:
- Aqui é que vossemecê vem pedir?
Agachou-se ajeitando os pedacitos de madeira que teimavam em não arder:
- Vá à vila, tiozinho. Lá é que lhe podem dar esmola. Mas - acrescentou após breve silêncio – hoje, não pense nisso; só ao sábado é que dão.
Montado numa bicicleta, um rapaz galgava a subida em direcção ao casebre. Saltou para o chão e foi encostar a máquina na parede. Examinou o velho. De súbito, o rosto do rapaz endureceu:
- Com que então, é você!...
A mulher ergueu-se. Frente um ao outro, os dois homens olhavam-se. O mendigo continua curvado e, como adiantara o queixo, a nortada brincava-lhe com as barbas.
- Sempre acabou por me descobrir, hem? – gritou o rapaz dando um passo – Diga lá o que quere!
O velho recuou. Aquela voz irritada tornara-se-lhe agora compreensível. O rapaz oscilava a cabeça a um lado e a outro como para conter as frases de ira que o atormentavam. Mas acabou por soltá-las:
- Quere casa e mesa, não?
Apontava para o casebre:
- Isto não é hotel! Ponha-se ao largo! Está velho? Que tenho eu com isso? Comer não arranjo eu todos os dias!
Foi à mulher e empurrou-a para dentro da porta. Voltou-se, erguendo os braços para o velho:
- E eu? Quando eu era pequeno, que fez você por mim? Que me deu você? Nem a ponta de um corno! Em que é que você é meu pai? Diga lá!
O mendigo foi recuando. E, sem tirar a mão de entre as pernas, cauteloso pela descida cheia de pedras que o atalho fazia até à estrada, tomou a direcção da vila. Atravessou-a sempre de olhar fixo. Tempo depois, desaparecia, ao longe, enrolado no vento e na noite.


Voltou no outro dia. Bateu de porta em porta. Como não era sábado, foi nula tôda a caminhada daquela manhã. Pelo meio-dia, caiu rente à parede da venda do largo.
Ajeitou-se melhor e permaneceu por muito tempo na mesma posição. Dir-se-iam de cego os olhos que a fome tornara baços. Assim a mesma quietude por todo o corpo como se a imobilidade da morte lhe houvesse tocado o coração. Devia ter passado uma hora quando o mendigo se ergueu. Deixava, abandonados no chão, os seus únicos bens: a vara e o saco vazio. E, de braços abertos, caminhava como os ébrios quando vão, desolados, de cabeça perdida.
Mas, junto ao bocal do pôço que há a um canto do largo, a dôr travou os pés do velho. Cuidadosamente, ajeitou o intestino, entre as pernas. Encostou-se ao bocal do pôço; com o braço livre puxou o corpo, e tombou para dentro.
A pancada na água ouviu-se na venda. Leonel Badanas foi o primeiro a chegar. Debruçou-se e, voltando-se para os que vinham a correr, gritou alegremente:
- Teve sorte, o raio do velho!
Os outros rodeavam o poço. O mendigo estava a uns dois metros do bocal, encostado às pedras esboroadas, ansiado, de bôca aberta como para vomitar. A água dava-lhe pelos ombros.
Então todos compreenderam a frase do Badanas. O velho caíra no estrado de madeira que apanha metade do círculo do pôço, um pouco abaixo do nível da água, e serve para os trabalhos de limpesa quando, no verão, a nascente enfraquece.
Dirigindo o salvamento, Leonel Badanas gritava ordens. Veio uma escada; desceram-na até ao estrado, e o bombeiro preparava-se para saltar quando lhe ocorreu uma idéia. Para quê molhar-se com um frio daqueles? E, depois, se a escada se partisse com o pêso de dois? E , seguindo o curso do pensamento, ordenou ao mendigo:
- Sobe, maroto!
A cabeça do velho desapareceu debaixo de água. Cresceu a espectativa em volta do bocal. Badanas ainda subiu para a escada, mas de novo parou dominado pela mesma idéia. Nêsse momento, reaparecia a cabeça do mendigo. A água escorria-lhe da bôca e das barbas.
Badanas aproveitou a altura:
- Sobe, malandro, se não vou lá abaixo!
Reanimado o mendigo voltou a mergulhar. Queria morrer. No entanto, já debaixo de água, no último momento, não conseguia evitar aquele retezamento de músculos que lhe esticava imperiosamente o corpo. Respirava de novo o bom ar da vida, e o primeiro movimento era a mão que o fazia introduzindo-lhe entre as pernas, compondo a quebradura.
Leonel Badanas começou a insultá-lo com obscenidades. Mas a cena repetia-se sem resultado para qualquer deles.
Até que o bombeiro teve outra ideia. Correu à venda, voltando com uma comprida vara. Intimou o mendigo a subir e, como êste se não mexesse, aplicou-lhe uma varada na cabeça.
- Sobes ou mato-te, malandro!
Agora as pancadas sucediam-se. O velho metia a cabeça debaixo de água: vinha a aflição da asfixia; erguia-se cá fora esperava-o uma varada.
Por fim, espicaçado pela vara, ponteira e firme nas mãos de Leonel Badanas, de cabeça dorida, o velho subiu a escada.
Levaram-no à Câmara. Apareceu gente. O administrador adiantou-se e começou a falar ao bombeiro no seu modo carrancudo de sempre. Nos olhos do velho, sentado nos degraus da escada. De-certo, iam castigar aquêle maldito que o não deixara aquietar-se de vez.
Mas aquilo acabou de um modo diferente. O administrador apertava a mão do bombeiro. As palvras já o mendigo não as compreendeu.
- Vai então ganhar a medalha, hem! – dizia o administrador. – Merece-a; salvou um homem.
Assim foi. Tinha muito pouco tempo a corporação dos bombeiros, sequer um incêndio havia ainda na sua história. De modo nenhum deixaria passar aquela oportunidade que ia justificar os seus préstimos. Estava ali o comandante tomando nota do caso. Perante isso, Leonel badanas baixou os olhos, cheio da natural modéstia dos homens decididos.
Nesse momento, um homem erguia o mendigo. Era o carcereiro que o ia meter na cadeia.
Foi pôsto na rua dois dias depois. Ainda ficou largo tempo em frente ao edifício, com os olhos pousados nas grades do portão. Tinham-lhe dado de comer enquanto lá estivera.
///
Desde o meio da rua, Leonel Badanas encara a multidão, de tal modo que parece ser êle o vencedor da corrida. No entanto, ao entrar no largo, todo o seu optimismo murcha. Ninguém repara nêle.
Um outro propósito levou para ali a população de Vila Boa, dividida entre dois partidos desde há um mês. Metade teima que só Luiz Paderne vencerá; a outra metade dá a mesma vitória a Chico Rata.
Vila Boa – Altinho – Vale Sol-pôsto – Ermidas – Vila Boa, um circuito de cento e tal quilómetros, é o melhor número da festa organizada por um grupo de senhoras, a favor das «Florinhas da Rua».
A gente –bem da vila tem o seu favorito, Luiz Paderne, que há três anos ganha a temível prova. É filho do dono da Mercantil do Sul e atleta do Clube Vilaboense. Um desportista.
O resto da população, a camada baixa, lançou êste ano o homem capaz de vingar as três afrontosas derrotas: Chico Rata, o que não impede que seja mais conhecido pelo «Bela Sardinha», ou simplesmente «Sardinha». O seu ofício é ir todos os dias à Costa e voltar com um caixote cheio de peixe, que vende na Vila e pelas herdades próximas. Daí o apelido. Como usa a bicicleta para se transportar, mais a caixa, colocada sobre a roda de trás, os directores do Glória ou Morte Foot-ball Clube – camisola verde, calção negro e inimigo desde sempre do Clube Vilaboense – fizeram-no sócio à última hora. E aí vai o Bela Sardinha, entre um grupo de garridas camisolas, estrada fora. Um peixeiro.
Agora no largo, a multidão agita-se, procurando melhores lugares. Mas os adeptos do Glória ou Morte estão inquietos. Pelo resultado da prova e por uma notícia que um carreiro participara no Pôsto da Guarda. O homem encontrara um velho afogado na ribeira de Almancil. O velho era aquele mendigo que Leonel Badanas salvara no inverno anterior. Então concordaram todos em nada dizer ao Chico Rata, caso êle ganhasse a corrida.


Era tempo. Gritos ecoaram no princípio da estrada. E a menina que está na varanda volve os olhos lá de dentro do sonho em que permanecia absorta. Será que tem estado toda a tarde pensando no príncipe encantado que nunca mais chega? E, ao reboarem as palmas, quebram-se os últimos vestígios do sonho que enublava aqueles grandes olhos.
Não é Luiz Paderne aquela estranha figura que galga a subida que vem para o largo… É o Chico Rata, exausto, gingando como bêbedo, sobre a bicicleta, a cara sumida, empapada no pó onde as bagas de suor abrem sulcos negros. Eis a Bela Sardinha de bôca aberta num esgar ofegante. E, decerto, há qualquer coisa espantosa no vago ponto que os seus olhos fitam desorbitados. Estica o queixo como se lhe fosse fugindo todo o ar respirável. Ou que, perto dos lábios, corresse a frescura, nunca mais alcançada, da água das fontes quando é Primavera.
Mal passa a meta, arrancam-no da bicicleta. A camada baixa da vila grita e dá palmas. «Viva o Rata! Viva o Glória ou Morte!».
Mas um berro que se repete domina tudo:
- Dêem de beber ao homem!...
Arrastam-no para a venda. Junto ao balcão bem seguro por debaixo dos braços, o vencedor bebe duas cervejas, uma após outra.
E, alastrava a conversa, quando um sujeito, decerto do Clube Vilaboense, toca no ombro do ciclista e diz:
- Rata, o teu pai morreu. Foi esta manhã, afogado na ribeira de Almancil.
O rapaz não compreendeu logo. No meio do mal estar dos directores do Glória ou Morte, o sujeito repete a frase. Mas a alegria volta a todos os rôstos; o Rata, encolhendo os ombros, respondera:
- Quero lá saber. Morreu afogado – morreu lavado.

Fonte: Revista Ler e Crer n.º 3  (Julho 1945)
Texto/Autor: Manuel da Fonseca
Fotos da Revista
𺰘¨¨˜°ºðCarlosCoelho𺰘¨¨˜°ºð

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Suicídio de uma rosa


Devido ao Maio, que mais o emeravilheceu, o parque, cheio de aroma e frescor, tornou-se um espectáculo digno de grande apreço. São, por isso muitos agora os espectadores.
Para apanhar o meu lugar predilecto. Encostado a um caniçal que fragilmente defende um acampamento soberbo de rosas, e d’onde se escutam os puríssimos conselhos da água que, activa, serpenteia a refrescar as flores e os arbustos, tenho de me apressar a chegar cedo: procedimento êste que os melros madrugadores marotamente me agradecem, jogando às escondidas com meu olhar que os persegue.
Como um general cuidadoso, um dos jardineiros informa-me minuciosamente, do estado das suas hostes, e participa-me com zelos de enfermeiro dedicado, as melhoras das doentes, a cura das convalescentes, as sentenças das desenganadas, enumerando-me os óbitos, os nascimentos e, até, os idílios e as rixas, que há na vida dos jardins como na vida do mundo.
É um bom filósofo o velho jardineiro do parque! Como a todo o bom filósofo, a mulher enganou-o. Resignou-se, ao cabo de dois anos e, ainda, como bom filósofo, enterrou-a outro dia, por sua conta, como se enterram as honestas.
Dantes era pedreiro. Quando lhe sucedeu o conjugal percalço, ficou com uma filha a seu cargo; filha que se prendeu de amores por um galucho, que a perdeu, e foi depois rolando para o enxurro, amaldiçoada pelo pai, que ia morrendo de vergonha.
Naquele dia pesaroso, em que a pequena fugiu com o soldado, o sr. Francisco, assim se chama o simpático velho, desgostou-se da antiga profissão:
- Eu era pedreiro, como o senhor sabe! – Explicou-me êle – Vivia de fazer casas para os outros. Mas desde a hora negra em que a minha Rosa me abalou com aquêle malvado, deixando o pai para ali, a um canto, sem dizer água vai, tomei azar ao ofício. Fazer casas! Para quê? Ralava-me eu bem, agora, de arranjar casas para os outros, quando não sabia concertar a minha! Podia lá ser!... Só se fizesse um jazigo! Mas para nós, os pobres, o jazigo faz-se, com duas pásadas, à mesma da hora… Que quer?
Meteu-se-me na cabeça uma cisma um enguiço, com que me não atrevi! Entrei de parafusar que aqueles dois – eu nem gosto de falar nisso! – Haviam de ir, um dia, morar para uma casa feita com estas mãos, que não souberam esganar aquele patife. E ser eu, com as paredes que levantasse, o encobridor daqueles desavergonhados? Nada, não senhor! Nem que tivesse de pedir esmola! Vivessem ou morressem! Para mim tanto fazia… E é que não tive ânimo de pegar na ferramenta! Pedras? Só se fôse para rachar com uma a cabeça daquele alma danada!...
- E fez-se então jardineiro?
- É verdade. Que remédio! Velho, cansado, só como um badalo de sino, cá vim parar às minhas ricas flores! Perdi a minha Rosa lá isso é certo! Uma rapariga que, até aquêle diabo lhe aparecer, ninguém tinha nada que lhe dizer… Pois fiquei sem ela! Mas arranjei aqui outra família.
- E outras Rosas…
- Também é verdade. Olhe que as flores são tal qual a gente! Mais feitio, menos feitio, é tudo a mesma coisa. Elas nascem, elas morrem, elas lá se namoram, lá se casam, lá se zangam umas com as outras… Como a gente, sem tirar nem pôr. Algumas teem boa cabeça e governam-se. Outras, o senhor faz lá ideia! Há cada uma…
- Que fazem elas sr. Francisco?
- Que fazem? Tolices, asneiras, até crimes como nós…
- Ora conte lá!
- São histórias muito curiosas! Olhe, ainda não há uma semana, ali à borda do lago! Está lá uma roseira – não sei se o senhor já viu! – Que parece, a tamanhinha, nasceu nos dias pequenos. Trato-a com muito cuidado, porque ela, tão enfezadinha, deve ser, a modos, aleijada.
Que as flores também teem os seus males, como a gente!
- E depois?
- Nestes anos atrás, tem corrido tudo muito bem. As flores nascem fracotas, mas bonitinhas, e como a mãe tem pouca força, mal vejo uma, aberta, vou-me a ela e corto-a. Guardo-a depois para o sacristão, que vem aí quási todos os dias à procura delas. Mando-as para a igreja a ver se, como são tão doentinhas, os santos lhes dão mais saúde. Mas qual história! Ou os santos estão a dormir, ou não as vêem com o escuro que lá faz dentro, ou então é o homem que as não põe no altar. Que eu já ouvi dizer que êle anda metido com uma galdéria bexigosa, que eu vi de vela na mão, quando foi da festa da freguesia.
- Um sacristão também tem direito à vida, sr. Francisco!
- E à pouca vergonha, que esta vida é quási sempre.
- É pessimista o sr. Francisco!
- Lá o que sou, não sei. Mas tenho visto muito mundo e pouca gente direita.
- E a história da roseira?
- Ora deixe-me cá, senhor! No sábado, apareceu-me, muito linda, com um botão maior que o costume. Até vergava a haste. Não tive coragem para o cortar. Vou-me a êle, e endireitei-o, bem especado; porque aquilo estava perigoso, por ser à borda do lago. Volto no domingo, e dou com o diabo do botão, que já começava a abrir, outra vez fora do seu lugar e debruçado para a água.
Parecia querer tomar um banho, o teimoso! Tornei a endireita-lo com mais geito. Pois não quer o senhor saber! Na segunda-feira, ia, muito cônscio da minha vida, com a navalha aberta, para o trazer e imagine o senhor!...
- Tinham-no roubado?
- Peor! Muito peor! A rosa abrira durante a noite, e devia ser famosa! Mas, não sei lá como; desfolhara-se logo ao abrir, e fôra parar ao lago. Ainda vi as suas pétalas, muito juntinhas a boiar. Sempre tive um desgosto! A doida! Veja lá o senhor! Não foi boa para ela, nem para ninguém.
- Quer dizer que se suicidou?
- Sei lá! Era sina. Tinha de se perder.
- Pobre rosa!
- Já vê o senhor que elas são tal e qual a gente! E agora, até logo, que vou à rega!
- Que pena que o orvalho não cure a má cabeça das rosas, sr. Francisco!
- Se assim fosse, meu senhor, há muito que a minha Rosa teria tornado a ser minha filha! Bastantes lágrimas me tem feito verter! – Disse-me em remate o velho jardineiro, voltando as costas, e tirando do bolso o seu lenço de quadrados…

Fonte: Almanaque Bertrand, 1940
Texto/Autor: Manuel de Sousa Pinto (Trecho do livro «O Jardim das Mestras»)
Foto da net
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quinta-feira, 6 de abril de 2017

O que é feito da tua irmã gémea que abandonaste ao nascer?


No Alto Minho tentando dar forma a um livro, isto é riscando quase tudo. O que ficará, como ficará? Parte do meu sangue vem dessa Província, anda no verde dos campos, nas casas, nas travessas, na chuva que cai agora, mansa, vertical, quase doce, íntima. O pai do avô do meu avô era um camponês muito pobre da Povoa do Lanhoso, de Darque, que se chamava Antunes. Farto de roer pedras meteu o filho de doze anos num veleiro para o Brasil, sozinho, esperançoso que a sorte da criança melhorasse. Imagino um garoto no Rio de Janeiro, sem conhecer ninguém, sem um tostão, sem sítio onde ficar. Lá se aguentou nem sei como, acabou por emigrar para a Amazónia. Chamava-se Bernardo António Antunes. Trabalhou em lojas que vendiam material para os seringais e, como devia ter olho, a sua sorte foi mudando. Olho e se calhar outras características que não me agradam porque ninguém enriquece de maneira honesta. A partir de certa altura, morando em Belém do Pará, ei-lo dono de terras e borracha. Acabou cheio de taco e visconde e, que se saiba, não tornou a Portugal. Mandava engomar a roupa em Paris. Vivia como um nababo. A chuva continua, ainda doce, lenta. Se o Camilo o apanhasse chamava-lhe um figo, ele que adorava brasileiros. Não apanhou. Apanhei eu uns restos do seu sangue nas minhas veias. À volta da casa onde estou, brincos de princesa, hortênsias. O meu bisavô herdou a maçaroca e casou-se com uma senhora judia chamada Leopoldina Lobo. Nessa época havia no Brasil Leopoldinas a dar com um pau em honra da Imperatriz. Explicaram-me em Jerusalém, ou seja explicou-me um velhote sábio, que passou anos nos campos de concentração, que os Lobos fugiram às fogueiras daqui, há muito tempo, e após várias peripécias foram ganhar raízes para outo lado do mar. O meu avô, parecidíssimo com a mãe, tinha uma cara de semita que não enganava. Uns restos de sangue dela nas minhas veias igualmente, se calhar os nazis arranjavam-me um fato ás listras, sei lá. Meu Deus a quantidade de acasos de que sou feito, de que somos feitos. Ando há anos a jurar a mim mesmo que hei-de ir à Póvoa de Lanhoso, cheirar-me nas esquinas. Ainda não fui, vou adiando. Penso
- Para o ano sem falta
e, recuo embaraçado sei lá com quê, salmão que hesita em subir o rio para morrer. Talvez se mantenham por lá uns primos Antunes, do mesmo sangue de pobre que é o meu. Foi-se refinando, claro, mas visto de perto continua o mesmo. E depois Antunes, caramba, é feio como o caneco, com o Lobo sempre disfarça um bocadinho mas as minhas origens, para onde quer que olhe, são mais ou menos todas assim. E nobreza, felizmente, não possuo nenhuma. Venho, por qualquer costado que me olhe, do povo, oque, secretamente, me agrada. A chuva, os brincos de princesa, as hortênsias. A minha família não pesa na história, não conta, feita de gente do Minho, do Algarve, de sei lá de onde, mais uns genes estrangeiros que me fazem sentir mais português ainda. Aqui perto, o mar: uma única onda, sempre a mesma, a que levou o menino Antunes ao Brasil e dura ainda. Casas de granito, ruazinhas, a alegria com que o sol chega. Estes cheiros, capelinhas perdidas no meio da serra. Apetece-me tanto deixar Lisboa, o sítio feio onde moro, habitar longe, sei lá onde, céu aberto, calor:
- Quando acabares o livro o que vais fazer?
Quando acabar o livro escrevo outro. Se for capaz. Se ainda existirem livros em mim, a gente não sabe. Se não existirem sento-me no chão, a contar os dedos: contando-os muitas vezes começam a ser menos. Quantos tenho? Na mão esquerda cinco, na direita não vi. O senhor Ernesto trouxe cerejas amarelas num cestinho: tão sério atrás dos óculos. Os mortos andam por aí, há dias estive com eles, corpo contra corpo, feições misturadas. Não sei qual de nós falou mais, eram vários, eu só um. Eu só um? Quantos encontra em mim, mãe? É melhor não perguntar, deve achar que eu só um, as mães acham sempre que a gente só um. O americano perguntava: O que é feito da tua irmã gémea que abandonaste ao nascer? O que lhe fiz de facto? Tenho-a procurado a vida inteira, em vão. Desistiu de mim, da minha falta de amor, foi-se embora. Se me pedirem contas, e hão-de pedir-me contas
- O que fizeste da tua irmã gémea que abandonaste ao nascer?
O que lhe respondo? Ninguém lhe deu um nome que tenho de o encontrar dentro de mim. Encontrar não: eu sei, finjo que não sei mas sei. Qual de nós dois escreve isto? Ela? Eu? Que homem não abandonou a sua irmã gémea ao nascer? A chuva interrompeu-se uns minutos, voltou: não andes por ai à chuva, mana, volta para dentro, de cabelo molhado, tão magra. Comprei este bloco numa papelaria minúscula: um euro. Perguntei
- Quanto custa?
Responderam-me
- Um euro
E fiquei parvo. Um euro com tanto papel dentro, já escrito, basta passar o bico da esferográfica por cima das palavras e, portanto, isto que escrevo já ca estava. Só se escreve o que já está nas páginas desde o princípio, à espera, não criamos nada. E, na minha ideia, foi a minha irmã gémea quem disse isto para mim. Se olharem com atenção vêem-na espreitar por cima do meu ombro. Que estranho: eu á sua procura e ela aqui, comigo desde sempre. Não voltou: não me abandonou apenas. Fui eu que deixei de olhar para ela, esteve sempre à minha espera. Passa a tua mão na minha cabeça mana. A tua mão na minha cabeça durante muito tempo. Até eu adormecer, por exemplo, para que não volte a acordar.

Fonte: Revista Visão
Texto/Autor: António Lobo Antunes
Foto da Revista
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domingo, 5 de março de 2017

Dar de beber a quem tem sêde…


Levou com firmeza o copo à bôca, empinou-o e deixou que o vinho lhe escorregasse lentamente pela guela abaixo, ao mesmo passo que sentia um prazer muito dôce e muito leve correr-lhe todo o corpo. Fora, na estrada, fazia um calor dos infernos, destes que secam as entranhas a um homem e, por isso, ainda com o copo seguro na mão, êle se pôs a gozar o prazer daquele refrigério, a frescura pacificadora que apagava o fôgo que sentia arder-lhe por dentro. Limpou em seguida os lábios, com as costas da mão encardida, primeiro para um lado, depois para o outro, alisando os pêlos do bigode e da barba que lhe pareceram menos rebeldes e mais macios. Só depois passou o copo sobre o zinco do balcão, com um gesto lento e satisfeito. Parecia dizer no seu íntimo que uma hora daquelas merecia bem alguns sacrifícios e algumas penas.
O taberneiro, que o espiava com desconfiança, pegou no copo sujo, mergulhou-o na água do alguidar, agitando-o violentamente, para logo o suspender no ar, a escorrer. Ia, porém a pousa-lo ao lado dos outros, que por alturas se alinhavam em duas fileiras, quando o homem sentiu que a sede lhe ardia de novo na garganta e nos lábios.
- Vase-me mais dois, ó sô Custódio!
O taberneiro olhou-o de soslaio e levou o copo a encher à torneira da pipa, e outra vez o homem viu com alegria o vinho ferver numa espuma leve.
- Não é má pinga, não senhor! – Disse êle, depois de um momento de contemplação. Em seguida tornou a empinar o copo e sentiu o mesmo regalo descer-lhe pelas entranhas sêcas, como uma brisa líquida que o trespassasse até às profundas da alma.
- Ainda lhe bebia outro!...
Tirou no entanto, umas moedas do bolso e pôs-se a conta-las na palma da mão. Reflectiu um instante, cerrou as pálpebras e mexeu levemente os lábios, como a murmurar uma oração. Deitava contas à porca da vida o pobre, enquanto o outro, detrás do balcão, não parava de o espiar, com os olhos desconfiados, sem perder um só dos seus movimentos. Entretanto êle mostrava-se indeciso. Mas por último não se conteve:
- Bote-lhe outro. Rica pinga, não haja dúvida!...
Outra vez o copo cheio pousou sobre a placa do balcão. Uma espuma rosada ia-se desfazendo aos poucos e poucos, num ferver demorado, que lhe saltava às narinas e lhe arrasava a bôca de água. O homem, porém bebeu aquêle último copo já com outro repouso, sem a sofreguidão dos primeiros, saboreando-o gôlo a gôlo e tomando-lhe o paladar um tudo nada acre, que ao misturar-se com a saliva se ia imperceptivelmente adocicando, num sabor fino e penetrante. Ao cabo daquela delícia, deu um estalo com a língua e repetiu:
- Rica pinga, sim senhor!
O taberneiro, porém, é que continuava a olhá-lo insistentemente, sem perder um único dos seus insignificantes gestos, como se tudo nêle lhe fosse suspeito e estranho.
Com efeito, a sua figura não era vulgar. Devia ser mendigo ou maltez da estrada, desses sem eira nem beira, que causam terror quando com eles nos cruzamos no caminho. A barba trazia-a de meses; o cabelo, imundo e comprido, caia-lhe sobre a gola sebenta do casaco, e as calças coutas tinha-as atadas com uma corda, cujas pontas lhe pendiam da cintura.
Da rua vinha um bafo quente de forno e uma luz crua que feria os olhos. Dentro da taberna, uma penumbra fresca e úmida envolvia as coisas e, por momentos, só se ouvia o zumbido impertinente das moscas em tôrno do tabuleiro dos queijos e um pingo que, de quando em quando, caía da torneira para dentro de uma medida de lata.
- Isto é que vai para ai uma seca dos diabos, sô Custódio!
Até parece África!
Mas o outro, com as mãos assentes sôbre o balcão e o corpo repousado sôbre os braços, parecia disposto a não lhe dar trôco. Pensava e repensava donde o conheceria aquêle meliante, que assim o tratava por sô Custódio e que êle nunca vira mais gordo. Dava tratos à imaginação e não havia forma de se lembrar. Freguez não era, pela certa, nem nunca fôra, porque sujeito que lhe passasse uma vez, ali pela frente do balcão, e mesmo a quem êle não tivesse medido mais do que um copo de dois decilitros, poderiam estar certos que não lhe esqueceria.
E agora apresentava-se-lhe aquêle vagabundo, piolhoso e sujo, sem a noção das conveniências, a trata-lo com familiaridade pelo nome e a emborcar copinhos, uns atrás dos outros…
Ná, a coisa não lhe parecia limpa! Mas, se por um lado a suspeita e a curiosidade lhe mordiam, por outro, não estava pelos ajustes de se rebaixar a dirigir-lhe a palavra, quanto mais a fazer-lhe perguntas, a dar-lhe confiança. O que era preciso era cuidado. E muito ôlho.
O outro, no entanto, parecia disposto a demorar-se. Sentara-se na beira do banco com um grande à-vontade, cruzara a perna e enrolara pausadamente um cigarro. Depois acendeu-o e puxou umas fumaças muito regaladas, muito calmas. Dir-se-ia o vilão em casa do seu sogro. Ao taberneiro apeteceu-lhe dizer que ali não era asilo nem casa de malta, mas conteve-se. Sempre queria ver em que aquilo dava, e por isso se lhe pôs um brilho muito sério nos olhos fundos.
- Pois é verdade, sô Custódio! Boa pinga tem vossemecê aqui. Há muito que não a bebo assim. Deve ser de algum lavrador cá do sítio não?
O Custódio continuava calado e apreensivo. Também isso não teve jeitos de o molestar, pois não tardou que se pusesse a palrar com entusiasmos de mil questões diversas, dando sempre à conversa um tom familiar, que cada vez mais irritava o outro, servindo-se de expressões que revelavam uma certa intimidade e muito atrevimento. Falou da incerteza dos tempos que corriam, tão diferentes dos antigos, referiu-se á crise, á instabilidade da vida, e acabou por concluir que tudo havia mudado, de uma maneira irremediável, desde o tempo às gentes. Por exemplo, quando é que o sô Custódio se lembrava de um calor assim? O taberneiro fazia trejeitos de impaciência e de espanto, mas êle parecia não dar conta. Já o Inverno tinha sido aquela peste que se vira, e agora por cima chegavam-lhe um verão de reduzir tudo a torresmos… Nem um homem sabia como se haver.
O Custódio cerava com força os lábios para não falar, e a cada instante repetia com os seus botões que aquilo devia ser meliante de primeira, gabiru de que não podia despregar o ôlho.
Onde é que já se vira – sim, onde é que já se vira! – um piolhoso permitir-se tais ares? A coisa começava a cheirar-lhe a esturro. E logo a uma hora daquelas, sem mais ninguém na taberna, vir assim o demo atentá-lo era para um homem desconfiar. Via-o na sua frente, de perna traçada como um senhor, a deitar fumaças para o teto, e no seu íntimo a suspeição crescia de minuto a minuto. Não devia ser por boa que o sujeito se lhe metera em casa, com aqueles despropósitos, com aquela lábia. Entrava ali muito vagabundo de estrada, mas nenhum vira ainda assim, com tais modos e tamanho desplante. Que o não conhecia, lá disso tinha êle a certeza certa, pois não era possível ter-lhe passado debaixo de ôlho um meliante daquela espécie e depois esquecê-lo, assim de pé para a mão.
O homem cada vez se desunhava mais a falar, sempre com muito «sô Custódio» à mistura, como se tivessem andado na mesma escola ou comido do mesmo prato. Não, ali havia coisa, lá isso havia! Agora o tinha êle na sua frente, a passear de um lado para o outro, muito animado, com muito paleio e muitos gestos, e a aproximar-se do balcão com as suas falas meigas. Mas fazer-lhe o ninho atrás da orelha, é que não lhe faziam. E Explodiu:
- Ouça lá, ó santinho, donde é que vossemecê me conhece?
- Donde o conheço?... Ora essa!
- Sim, donde é que vomecê me conhece e onde é que eu já lhe dei confiança para tanta conversa?
- Homem, essa nem parece sua, sô Custódio! Quem haverá aqui nas redondezas que não o conheça?!...
- Isso cá para mim é paleio!
Não pega!...
- Pelo visto, o sô Custódio é desconfiado.
O taberneiro, pelo sim pelo não, passou-se para fora do balcão, não fosse o diabo tecê-las a uma hora daquelas. Deitou-lhe mão a um braço, abanou-o levemente e disse:
- Três copos de dois, soma tudo doze tostões. Toca a passar para cá a massa!
O outro sorriu com uma brandura inefável, meteu a mão ao bôlso, puxou do dinheiro vagarosamente e sacudiu com energia a mão que o agarrava. Ao ver luzir as moedas, o Custódio serenou um pouco mais e tornou a passar-se para dentro do balcão, onde se encostou ainda com certa arrogância, não deixando de pôr em evidência a presença dos seus braços cabeludos e fortes. O vagabundo sorria:
Ora o sô Custódio a desconfiar da freguesia! Isso nem parece seu!...
O outro não retorquiu, um pouco embezerrado, a pensar que talvez se tivesse excedido, mas a verdade, também, é que àqueles meliantes não pode um homem mostrar os dentes.
- Pague-se então lá de três copos de dois.
E bateu sôbre o zinco com uma placa de cinco escudos. O outro abriu a gaveta, debruçou-se, pois na obscuridade a custo via, e contou-lhe para cima do balcão, uma a uma, as moedas do trôco. Por entre as barbas sujas do meliante, o seu sorriso cada vez se tornava mais bonito, de quási
Imperceptível. Recolheu serenamente a demasia, apertou-lhe a mão com um vago sentimento de encanto e tornou à conversa:
- Pois verdade seja: há muito que não enxugava uns copos que me soubessem assim!... Boa pinga, não haja dúvida!
Depois, pareceu meditar um momento, sorriu de novo, e disse:
- Ó sô Custódio, faça o obséquio de me encher mais um copo. É que não sei quando o tornarei a beber assim – e pagou adiantado, com duas, moedas de cobre.
O taberneiro trouxe-lhe o vinho. Êle mirou-o com um sorriso amigo, deitou ao copo a mão forte, e sem respirar enxugou-o até à última gôta. Sentia-se como num céu aberto. Depois passou a mão pela barriga, num terno afago e concluiu:
- Já cá levo para o caminho!
O sol tinha virado um pouco e, sôbre a soleira da porta, desenhava-se já uma mancha larga de sombra.
- São horas! Então, até à próxima!
Custódio rosnou entre dentes:
- Que Deus o leve!
- Seja tudo pelo Senhor! – Respondeu-lhe o vagabundo.
Encaminhou-se para a porta, olhou para um lado e para o outro da estrada, como indeciso no caminho a escolher. Depois, fez uma vénia profunda, levou a mão ao chapéu num comprimento irónico, cuspiu para o lado e foi-se.
O Custódio foi vê-lo à porta. Na mancha ardente da estrada, a sua figura recortava-se a negro, e a cada passo se tornava mais longínqua, comida pela distância, até que se perdeu entre as sombras dos altos eucaliptos.
Ao sentar-se no banco, pousando os braços sôbre os joelhos, o Custódio ainda murmurou:
- não me agradou a pinta do animal!...
E caiu numa grande calma.
De repente, porém, o coração deu-lhe um baque. Correu como um doido à gaveta, agarrou no dinheiro e veio vê-lo à claridade da porta. Era chumbo de terceira ou quarta qualidade. Teve então um, grito de desespero:
- Má raios me partam!
Mas, àquela hora, onde iria o meliante?!
Sentou-se vencido e botou-lhe as contas:
- Quatro copos de dois e mais três mil e quatrocentos de esmola.
Não está mau negócio!
E, num movimento brusco, arremessou ao chão com a placa falsa.
- Comeu-me o ladrão!

Fonte: Revista Ver e Crer Nº3 (Julho 1945)
Texto/Autor: Manuel Mendes
Foto: F. Azevedo
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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Sem tréguas à vista


O senhor Ribeiro tinha razão: o sobrinho era mesmo trabalhador. Chegava de madrugada e saía antes das sete da manhã. Era preciso ser mesmo empenhado no que fazia… A cozinha estava deserta quando desci. Preparei um café e uma torrada. Enquanto comia, comecei a ficar irritada com a cena anterior. O Rafael podia ter-se apresentado ou dito bom dia! Até o cão tinha sido mais afável do que o dono! Ao menos, não ia ter de conviver muito com ele! Melhor assim, estava farta de ter de manter a máscara de simpatia.
Depois de comer, tentei ligar para a Beta. Telemóvel desligado, como seria de esperar àquelas horas da manhã. Voltei ao quarto, arrumei a cama e fiquei sem nada para fazer. A casa escura, de janelas fechadas, não era acolhedora. O sol brilhava lá fora, a convidar-me para uma caminhada.
A fazenda ainda tinha uma boa dimensão; nas traseiras da casa, estendia-se uma plantação de videiras até onde a vista alcançava, e elas estavam bem cuidadas, ao contrário do jardim. Caminhei ao longo do carreiro, imersa em pensamentos. A tensão matinal desapareceu com a vista maravilhosa para a serra… Quando dei por mim, estava frente a um córrego de água límpida. Sentei-me com os pés dentro de água e, pela primeira vez desde que cheguei ao Norte, senti-me contente. Deixei-me ficar por ali, embalada pelo som constante da água, enquanto decidia o que ia fazer a seguir. Podia regressar à casa de Rafael e esperar por notícias da Beta. Não estava com grande vontade de ficar parada a olhar para as paredes até que ela se lembrasse de mim. Mais valia ter ficado na cama. O primo do André fugiu a sete pés e só o Tyson tinha sentido um genuíno interesse em mim.
A casa da dona Júlia não devia ficar distante dali. Se ao menos tivesse fixado o caminho, podia ir andando até lá. Assim não ficava parada à espera. Detesto esperar! Pareceu-me ser uma boa solução. O pior que podia acontecer era perder-me e ter de andar para trás. Não tinha nada a recear, trazia a mochila, o telemóvel e uma garrafa com água.
Convencida de que era a melhor coisa a fazer, tirei os pés de molho e calcei os ténis. As calças azuis ficaram sujas de terra, mas não ia importar-me com um pormenor desses. Quando cheguei ao meio da vinha, deparei-me com um empregado do Rafael, que indicou-me um atalho para a casa dos pais do André. Garantiu-me que, em 15 minutos, estaria lá.
Meia hora depois, dei por mim no meio de um pinhal. A vinha ficava a uns 20 minutos e o meu destino não parecia ser mais perto. Aquele caminho não deveria ter muito uso. A vegetação cobria o chão. Flores silvestres cresciam ao lado de árvores de vários tipos e tamanhos. Se não estivesse irritada por não saber onde estava, nem que direcção devia seguir, podia ter-me sentido tentada a explorar as redondezas.
Encontrei o riacho que o empregado me tinha dado como ponto de referência. Segundo ele, era só segui-lo e ia dar logo com a propriedade da família Ribeiro. Talvez tenha sido a falta de atenção ou apenas um golpe de azar: tropecei na raiz de uma árvore e rebolei por um declive. Fora o susto, continuava inteira. O orgulho ferido e o tecido da túnica rasgado contribuíram para aumentar a minha irritação.
Fiquei sentada no chão durante uns minutos. Controlei uma súbita vontade de chorar. Aquela visita ao Norte não estava a ser nada como tinha imaginado. Nem era o contratempo de ficar na casa de um desconhecido nem tão-pouco o facto de ele ser arrogante e mal-educado. O meu desalento podia não ter explicação, mas também não era nada oportuno. Ao relembrar a minha queda deselegante, o meu sentido de humor venceu a batalha. Desatei a rir, ali sozinha, no meio do pinhal. Meti-me a caminho, desta vez com mais atenção aos obstáculos. Mais dez minutos e estava no pátio da casa Ribeiro. Reparei que estava um carro estacionado ao lado do meu. O pai de André devia estar em casa. Ainda bem, assim não tinha de aturar a tagarelice da dona Júlia.
A porta estava aberta e eu podia ouvir vozes na cozinha. Hesitei antes de entrar. Se calhar devia chamar primeiro, antes de invadir a casa. Provavelmente, a não ser que desse uns bons berros, eles não me ouviriam. Acabei por entrar, com cuidado para não fazer barulho. A minha intensão era chegar perto das escadas, que ficavam próximas da entrada para a cozinha, e chamar pela dona Júlia. Como de costume os meus planos deram para o torto. Com uma rapidez inexplicável, aconteceram três coisas que me colocaram numa posição embaraçante: ouvi uma voz facilmente identificável comentar: “Não tenho nada contra a amiga do André, mas para mim, todas as mulheres são um problema. Quanto mais depressa ela sair da minha casa melhor!”
Tyson surge do corredor e pula para cima de mim; não aguentei o peso e caí desamparada em cima de um degrau.
A barulheira  chamou a atenção da dona Júlia e de Rafael, que apareceram á porta da cozinha, com um ar alarmado. Tyson continuou em cima de mim, presenteando-me com lambidelas molhadas de alegria canina. Obedecendo à voz de comando do dono Tyson libertou-me do seu peso.
- Grande susto que me pregou! Como é que veio cá parar?
A dona Júlia tinha todo o direito de saber porque é que lhe tinha invadido a casa. Mais uma vez, antes que conseguisse responder, ela atalhou:
- O que é que lhe aconteceu? Tem a roupa suja e rasgada! -  só a intervenção de Rafael permitiu que eu me explicasse.
- Tia, deixe a rapariga falar!
- Peço desculpa. Levantei-me cedo e, como a Beta não atendia o telemóvel, caminhei até aqui.
- Oh, Rafael, então não podias ter trazido a Adriana? – Era uma pergunta pertinente. Ele ficou com o mesmo ar severo e respondeu:
- podia, se soubesse que ela queria boleia…
Aquela resposta foi a gota de água! Então, ele tinha-me virado as costas, sem sequer me dar os bons-dias, e agora a culpa era minha!
- Se o senhor não tivesse saído tão rapidamente, eu talvez tivesse tido oportunidade para pedir-lhe boleia!
A conversa tinha todos os ingredientes para azedar. A dona Júlia percebeu que havia algo estranho e interveio.
- Não vale a pena chorar sobre o leite derramado. A Adriana tem de desculpar o meu sobrinho, ele não fez por mal. Venha comer que, de estômago cheio, vai ver que fica logo mais bem-disposta.
- Obrigada, mas não tenho fome. Queria ver a Beta.
- Ah, mas ela ainda está a dormir. É cedo para acordá-la.
Mais uma vez senti-me a estorvar os planos daquela família. E a Beta nem sequer se lembrava que eu tinha vindo com ela; continuava a dormir profundamente. Deu-me uma enorme vontade de subir as escadas e ir acordá-la à bofetada. Sim senhora, implora-me para vir com ela e choraminga com medo da sogra. Uma vez chegadas a Chaves, age como se fosse normal impingir-me a casa de um desconhecido. Ainda por cima, um desconhecido que demonstrava claramente não me querer acolher…
A minha revolta transparecia no olhar. Rafael deve ter percebido, pois sugeriu:
- O melhor é ir mudar de roupa. Aproveito e vou a casa buscar uns documentos que me esqueci. Pode vir comigo, que depois deixo-a aqui.
- Boa ideia! – Dona Júlia concordou prontamente. – Assim dá tempo para a Beta acordar. E a Adriana não pode ir assim, nesse estado, para a cidade.
Mais uma vez decidiram o que eu devia fazer. Apeteceu-me fazer uma birra, como uma criança pequena. O meu carro estava mesmo ali à porta. Era só ir buscar a chave ao quarto da Beta e escapulir-me para Lisboa. O problema é que já não tenho idade para fazer birras. Sem outra alternativa, acedo e segui Rafael até ao jipe.
Ele não tornou a falar e eu também não meti conversa. Limitei-me a fazer o caminho com o olhar fixo através da janela. Em menos de cinco minutos, estávamos novamente na fazenda. Assim que abri a porta, o Tyson saltou logo do jipe. Entramos em casa e Rafael disparou um comentário brusco, no seu estilo habitual.
- Não se demore que estou com pressa.
Podia ter-lhe dado uma resposta torta, podia, mas não o fiz. Não ia dar-lhe a satisfação de mostrar como ele me irritava. Troquei de roupa rapidamente, escovei o cabelo e, satisfeita com a minha aparência, regressei à sala. Nem sinal de Rafael ou do cão. Sentei-me no sofá e esperei.
… (continua)

Fonte: Revista Maria
Texto: Fátima Pereira
Foto: Revista
𺰘¨¨˜°ºðCarlosCoelho𺰘¨¨˜°ºð

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

O Gil Sapateiro


Poh! Poh! Poh! – Fogem as galinhas, as vacas ensaiam uma corrida para a valeta, e ficam muito admiradas que os monstros tenham passado e elas quedem incólumes, sem lhes quebrarem sequer uma perna. A tia Maria Quitéria vem ao cancelo coscuvilhar. Estacaram, afinal com grande rompante e aparato senhorial, diante da taverna, os três automóveis. Podengos, grevas, escopetas em seus estojos, luvas amarelas, chapéus de pano inglês aos quadradinhos, é uma tartarinesca comitiva de caçadores. Largaram com a alva de Viseu, de Aveiro, do Porto em batida à serra, onde dizem que as perdizes são bastas a dar com um pau e os coelhos dançam a raspa nas clareiras.
- Venha o Gil Sapateiro!
O Gil Sapateiro, Nenrod impenitente sob os olhos do Eterno, não se faz rogar duas vezes. Ele é o guia encartado da Nave, tal como os dos Alpes, para toda a expedição cinegética que se preza. Ninguém conhece os andurriais melhor do que ele, e antes de mais nada chama-se uma espingarda de respeito. Os caçarretas da cidade é que são insuficientemente compreensivos e, em vez de lhe passarem para as mãos uma sarrasqueta suplementar, fazem-no alombar com o farnel, embora carregado de bons vinhos velhos e iguarias de lhes lamber o beiço, de que será comparte irmãmente. E ele então vinga-se. Vinga-se à maneira do Lazarilho de Tormes. Guia os belos caçadores pelas escarpas onde não tarda que deitem os bofes com as íngremes escaladas. Providencialmente lá está o manancial de água pura, e toca a beber. Bebem, fumam, lançam duas chalaças ao vento. Uns minutos de repouso, e ala mais arriba por trilho não menos excomungado, trepando morro após morro. Mas se o piso é áspero, as fontes a cada passo rompem da rocha, com a sua veia de cristal puro ou entoando a branca ladainha. Como o lobo da fábula, volvem a beber e nova cigarrada.
À hora de almoço, depois de tanta pançada na água, quando o estendal das comezainas rescende que consola e o vinho rutila nos copos, quem tem apetite de comer e de beber? O Gil. O Gil tira-lhe o ventre de misérias, aquela miséria ancestral, filha da sua condição e temperamento. Não é o perfeito lazarone, mas, para ele gaspear umas botas é operação mais custosa que palmilhar uma área de duas léguas debaixo de neve ou com o cieiro a cortar as orelhas como a navalha do Zé da Lajas, que leva coiro e cabelo. O Gil Sapateiro bebe no sangue generoso de Cristo como uma sanguessuga, como um areal no pino do Verão, como a equipagem de uma escuna inglesa na Travessa do Cotovelo. Caçada… de grilo!
O Gil sapateiro nem sempre leva a sua vingança até fecho. Posto que meio turvo do juízo, não raro pede a hamerless ao mais cansado ou mais desiludido dos caçadores, e encaminha a malta para trás de um cerro, logo ali a breves passos:
- Estamos no reino das perdizes. Agora é bombear-lhes, meus senhores!
Ao fim do dia, o Gil Sapateiro fez, ele só, mais cinto que todos juntos.
Um ano, o que não sucedia desde o princípio do seu mundo, o Gil Sapateiro tirou licença de caça e porte de arma. Era caçador furtivo acabado por contumácia e opinião, mas tantas emboscadas lhe armou a Guarda de três concelhos, tantos autos lhe ergueu, tanta gente ele incomodou para não malhar com os ossos na cadeia, que se resignou a pôr-se quite com a lei. Esportulou-se, mas não perdoou aos seus zelosos agentes. Gil é o turdetano que trás em dia as suas dívidas de gratidão e de ódio. Quando pelo monte lhe luziam ao largo os capacetes da Guarda, simulava de transgressor. A serra era grande e ele tinha pernas de gamo. Mais ele corria, mais as praças lhe corriam no encalço. Quando sentia que estavam esfalfadas, que rebentariam se lhes pusessem a mão na boca, detinha-se e desatava a berrar aos cães:
- Pega Janota, pega, lá vai o coelho!
- A licença?
O Gil apalpava-se, fingia o maior dos embaraços, punha-se de olhos em vago a consultar os botões, monologando:
- Não querem lá ver que a mulher acendeu o lume com ela! Coitada, foi para me assar as sardinhas…
Os guardas afivelavam a máscara farisaica que é própria do homem sempre que apanha o fabiano em falso.
- … a menos, a menos que não seja este papelucho… Os senhores sabem ler?...
O Gil Sapateiro é caçador de reiuna, chumbeiro e polvorinho. Pólvora e chumbo orça-os pela cova da mão. Bucha, pede-a ao musgo dos penedos ou do tronco das árvores. E o seu tiro prima por tão exacto que não o seria mais pesadas as doses em balança de joalheiro. Quantas vezes ombreando com um grupo de garbosos caçadores, dos tais de pena arvorada no chapéu de quadriláteros, a caça lhes rompo imprevistamente dos pés! Salva: bum, bum, bum! A lebre prossegue na sua rota. É a vez do Gil meter à cara… Com certa demora aponta a longa colubrina… dispara. Levanta-se uma nuvem de fumo – porque não é ele que dispõe da melindrosa e cara pólvora piroxilada – e lá está o bicho tombado sobre o flanco ou escabujando nas vascas da agonia.
Com os caçadores da aldeia Gil é o capitão. Ele é quem traça o rumo das montarias. Tal dia vai-se para os orgueirais da Nave. Os coelhos lá são densos como os pecados. Tal outro, bate-se a coutada de Águas Boas. Não deixam de saltar por lá duas maçaricas! Maçaricas são as lebres esbranquiçadas e de lombo mais amarelo que um velho chamalote.
De ordinário, ninguém é mais afortunado do que ele. Nos dias de macaca, pelas tavernas dos poviléus ou quando merendam, deitados à romana à sombra dos soutos, espoja-se na credulidade dos parceiros mais gozosamente que um galaroz no cisco das quintãs. Mormente se os pichotes cometeram o despautério de matar mais caça do que ele. Como passaram a santa manhã batendo monte, cada um se alivia do cinto, pendurando-o do galho de um pinheiro. Os cães enrolam-se em bicho de conta, mais fatigados que os amos á espera do osso ou naco de pão, partindo à unha, que caia do céu. Contemplam nostalgicamente os coelhos ajoujados pelo jarrete, com a mosca branca da cauda descaída para o lombo, as perdizes penduradas pelo bico, e vão pré-saboreando o migalho que lhes virá a competir.
Os caçadores comem, bebem, fumam, trapaceiam, lamentando-se do tiro chofrado ou celebrando a pontaria providencial neste ou naquele lance. O Gil Sapateiro, como atirador de cara e loquaz, é o tribuno por excelência.
- … Uma vez acabou-se-me o chumbo. Tinha dado num bando de perdizes, ariscas com o suão, e era vê-las tocar guizos para lá do campo de tiro. Carga a carga, quando dei conta não tinha bago no chumbeiro. O diabo foi que a certa altura vejo avançar uma lebre, aos saltinhos, tep-tep, tep-tep, furtada aos cães, de que se ouvia a maticada ao longe. Raio de azar! E agora? Era um pinhal e ponho-me por vício a escarafunchar nos bolsos, quando descubro um prego no meio do cotão. Ora, atiro com ele, um destes pregos caibrais maiores que os que crucificaram Cristo, para dentro da espingarda e, quando a lebre ia a atravessar, aponto, escondido por trás de uma giesta, disparo… Olho, lá estava a lebre, caramba! Uma lebre grande como uma casa. O mais bonito, querem vocês saber, é que ficou cravada nas orelhas contra um pinheiro. Dava salto de corça…
Os mais imaginativos ficam de boca aberta admirados e inocentes; os incréus riem.
- Assim Deus me salve, como falo verdade. Na caça, amigos, sucedeu destas maravilhas. Ainda haveis de comer muita rasa de sal para sairdes da cepa torta do laparoto trucidado no tojo e da rola assassinada no galho de um amieiro!
Façanhas e anedotas, entre caçadores, sucedem-se de cambulhada como as cerejas. É ainda ele quem conta como, num dia de Verão, voltando de Barrelas, de bicicleta, onde fora comprar pez para as linhas, uma lebre se esbarrou com ele. Atirou-lhe com a bola de pez, que se lhe colou no focinho ao que ia de mole. Vai, descia uma segunda, o macho, do outeiro do Santo Antão tão cega com o cio que veio mesmo marrar com a outra e lá ficaram as duas coladas, tão coladinhas, que foi só deitar-lhes os galfarros e pô-las á cinta.
Os cépticos respondem com vaias e gracejos. Os sisudos benzem-se. Ele jura por sua alma e de sua avó que foi assim mesmo. E acaba por ficar tão convicto da patranha forjada, que puxa para o Zé da Rocha, que se permitia duvidar.

Fonte: Almanaque Diário de Notícias (1954)
Texto: Aquilino Ribeiro
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